A Economia e a Terra

I

Um Relacionamento Estressado



Eco-EConomia


Sinais de Estresse: Clima e Água

2


Sinais de Estresse:

Clima e Água

Em 19 de agosto de 2000, o New York Times divulgou que um navio quebra-gelo de cruzeiro havia chegado ao Pólo Norte e constatado que esse famoso ponto gelado da Terra era agora mar aberto. Para uma geração que cresceu lendo os relatos penosos de exploradores, como o americano Richard Byrd, tentando alcançar o Pólo Norte enfrentando frio intenso, gelo e neve, essa nova visão parecia inconcebível.1

Em suas muitas viagens anteriores ao Pólo Norte, o navio de cruzeiro permitia o desembarque de passageiros para serem fotografados, de pé, sobre o gelo. Nessa ocasião, o navio teve que seguir por vários quilômetros até encontrar gelo espesso o suficiente para a sessão de fotos. Caso os exploradores de um século atrás explorassem o Pólo Norte no verão de 2000, teriam que nadar os últimos quilômetros.

Reportagens da mídia sobre o degelo, caracteristicamente, enfocam geleiras específicas ou calotas, porém o gelo está se derretendo praticamente por toda parte. Considerando que os 14 anos mais quentes, desde que foram iniciados registros em 1866, ocorreram a partir de 1980, isso não deve causar surpresa.2

A escassez hídrica também é manchete. Alguns dos grandes rios


Eco-EConomia

mundiais estão secando, deixando de alcançar o mar. Entre eles está o Colorado, o rio principal do sudoeste dos Estados Unidos. Na China, o Rio Amarelo, o mais ao norte entre os dois maiores do país, não chega mais ao mar durante certa época do ano. Na Ásia central, o Amu Darya às vezes não consegue atingir o Mar de Aral devido à drenagem a montante para irrigação.3

Poços estão secando em todos os continentes. À medida que a população se expande e a renda aumenta, a demanda pela água simplesmente suplanta a oferta em muitos países. Os mais ricos perfuram poços cada vez mais profundos, buscando água solo adentro. Os que não dispõem de recursos para aprofundarem seus poços ficam em desvantagem.

A tendência é a situação se tornar bem mais precária, uma vez que as 3.2 bilhões de pessoas que serão acrescentadas à população mundial até 2050 nascerão em países que já estão enfrentando escassez hídrica. Com 40% dos alimentos mundiais produzidos em terras irrigadas, a escassez hídrica causa impacto diretamente à segurança alimentar. Se estivermos diante de um futuro de escassez hídrica, estamos também diante de um futuro de escassez alimentar.4

Aumento da Temperatura

Desde o início da agricultura, o clima da Terra tem se mantido extraordinariamente estável. Hoje, a temperatura está em elevação devido aparentemente ao efeito estufa _ o aquecimento resultante do aumento da concentração de gases retentores de calor, principalmente o dióxido de carbono (CO2), na atmosfera.

Esse aumento de concentração do CO2 tem duas origens: a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. Anualmente, mais de 6 bilhões de toneladas de carbono são liberadas na atmosfera com a queima de combustíveis fósseis. As estimativas da liberação de carbono pelo desmatamento variam muito, mas se concentram em 1,5 bilhão de toneladas/ano.5

A liberação de CO2 dessas duas fontes está simplesmente suplantando a capacidade da natureza de fixar o dióxido de carbono. Quando a Revolução Industrial iniciou, em 1760, as emissões de carbono da queima de combustíveis fósseis eram insignificantes. Mas, já em 1950, haviam atingido 1,6 bilhões de toneladas anuais, um volume que já incrementava os níveis atmosféricos de CO2. Em 2000, totalizavam


Sinais de Estresse: Clima e Água

Figura 2-1. Emissões Mundiais de Carbono da Queima

de Combustíveis Fósseis, 1900-2000

6,3 bilhões de toneladas. (Vide Figura 2-1.) Esse aumento quádruplo, a partir de 1950, está no cerne do efeito estufa que está aquecendo a Terra.6

As emissões de carbono de combustíveis fósseis específicos variam. A queima de carvão libera mais carbono por unidade de energia produzida do que o petróleo, e o petróleo mais do que o gás natural. A frota global de 532 milhões de automóveis a gasolina juntamente com as milhares de usinas elétricas a carvão são literalmente as forças motrizes da mudança climática.7

Além disso, nos últimos anos, o mundo vem perdendo 9 milhões de hectares de floresta por ano. As florestas armazenam, com facilidade, 20 vezes mais carbono por hectare do que a terra agrícola. Se pararmos com a eliminação de florestas, essa fonte de emissões de carbono desaparecerá. No hemisfério norte, a área florestal está, na realidade, aumentando ao ritmo de 3,6 milhões de hectares anuais. O grande desafio é conter e reverter o desmatamento nos países em desenvolvimento.8

No início da Revolução Industrial em 1760, a concentração atmosférica de CO2 era estimada em 280 partes por milhão (ppm). Em 2000, havia atingido 370 ppm, um aumento de 32 % sobre os níveis pré-industriais. (Vide Figura 2-2.) O acúmulo de CO2 atmosférico, entre 1960 e 2000, de 54 ppm excedeu de longe o aumento de 36 ppm entre 1760 e 1960.9


Eco-EConomia

Figura 2-2. Concentrações Atmosféricas

de Dióxido de Carbono, 1760-2000

Os níveis atmosféricos de CO2 vêm aumentando a cada ano, desde que as medições anuais foram iniciadas em 1959, tornando esta uma das mais previsíveis tendências ambientais. Os livros didáticos de Física ensinam que, à medida que os níveis atmosféricos de CO2 aumentam, a temperatura da Terra também se eleva, exatamente o que está ocorrendo. Como observado anteriormente, os 14 anos mais quentes, desde que se iniciaram os registros, ocorreram a partir de 1980. Nas últimas três décadas, a temperatura média global aumentou de 13,99o C, no período 1969-71, para 14,43o,entre 1998-2000, um ganho de 0,44o C.10

A elevação dramática da temperatura da Terra desde 1980 está claramente demonstrada na Figura 2-3. Não está só aumentando celeremente, mas também projetada a se elevar mais rapidamente no próximo século. Caso as concentrações atmosféricas de CO2 dobrem os níveis pré-industriais até o final deste século, chegando a 560 ppm, a temperatura deverá aumentar 1,4 _ 5,8o C. Temperaturas em elevação levam a eventos climáticos mais extremos _ ondas recordes de calor, degelo, elevação do nível do mar e tempestades mais destrutivas.11

Aumentos projetados da temperatura não serão distribuídos eqüitativamente pela superfície da Terra, sendo maior sobre o solo do que sobre os oceanos, e também será maior em altas latitudes do que em regiões equatorianas. Regiões do interior nas latitudes norte deverão


Sinais de Estresse: Clima e Água

sofrer maiores saltos da temperatura. Uma amostra do que está por vir pôde ser sentida na onda de calor de 1995, em Chicago, quando as temperaturas atingiram 38-41o C durante cinco dias consecutivos. Embora Chicago seja uma cidade industrial moderna, com sistemas extensos de ar condicionado, essa onda de calor causou mais de 500 mortes. E, como Chicago está no centro do Cinturão do Milho nos Estados Unidos, o calor intenso também ajudou a reduzir a colheita de 1995 em cerca de 15 %, ou US$ 3 bilhões.12

Degelo

O degelo é uma das manifestações mais visíveis do aquecimento global. Às vezes, a comprovação do degelo de geleiras montanhosas se manifesta de forma extraordinária. No final de 1991, alpinistas no sudoeste dos Alpes, na fronteira Áustria/Itália, descobriram um corpo masculino humano, intacto, surgindo de uma geleira. Aparentemente preso numa tempestade há mais de 5.000 anos e logo coberto por neve e gelo, esse corpo estava extraordinariamente bem-preservado. Em 1999, outro corpo foi encontrado numa geleira que derretia no Território de Yukon, no oeste do Canadá. Como observei na ocasião, nossos ancestrais estão emergindo do gelo com uma mensagem para nós: a Terra está se aquecendo.13

Figura 2-3. Temperaturas Médias

na Superfície da Terra, 1866-2000


Eco-EConomia

No Mar Ártico, o gelo marinho está derretendo rapidamente. Em 1960, sua espessura era de quase 2 metros. Em 2001 tinha, em média, um metro. Ao longo das últimas quatro décadas, a manta de gelo perdeu 42 % em espessura e encolheu 6 % em área. Conjuntamente, afinamento e encolhimento reduziram a massa de gelo do Oceano Ártico quase pela metade. Esse degelo acelerado deverá continuar. Um estudo recente feito por dois cientistas noruegueses projeta que, dentro de 50 anos, o Oceano Ártico poderá estar totalmente livre de gelo no verão.14

Em 2000, quatro cientistas dos Estados Unidos publicaram um artigo em Science, informando que a imensa manta de gelo da Groelândia estava começando a derreter. Situando-se em grande parte dentro do Círculo Ártico, a Groelândia está acumulando algum gelo nas maiores elevações da sua região norte, mas está perdendo muito mais nas partes mais baixas, particularmente ao longo dos seus litorais sul e leste. Essa imensa ilha de 2,2 milhões de quilômetros quadrados (três vezes a área do Texas) está sofrendo uma perda líquida de 51 bilhões de metros cúbicos de água a cada ano, um volume quase dois terços da vazão anual do Nilo ao entrar no Egito.15

A península da Antártica também está perdendo gelo. Contrariamente ao Pólo Norte, que é coberto pelo Mar Ártico, o Pólo Sul está coberto pelo continente da Antártica, uma massa de terra aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos. Sua manta continental de gelo, que tem em média 2,3 quilômetros de espessura, é relativamente estável. Mas, as plataformas de gelo, as porções da manta que se estendem para os mares circundantes, estão desaparecendo rapidamente.16

Uma equipe de cientistas norte-americanos e britânicos divulgou em 1999 que as plataformas em ambos os lados da península da Antártica estão recuando celeremente. A partir de meados do século até 1997, essas áreas perderam 7.000 quilômetros quadrados, à medida que a manta se desintegrava. Mas, em menos de um ano, perderam outros 3.000 quilômetros quadrados. Icebergs do tamanho do Estado de Delaware que se desprenderam ameaçam a navegação na região. Os cientistas atribuem o degelo acelerado a um aumento regional da temperatura de 2,5o centígrados, a partir de 1940.17

Esses não são os únicos exemplos do degelo. Lisa Mastny, do Worldwatch Institute, que analisou cerca de 30 estudos sobre este tema, informa que geleiras de montanhas estão derretendo em todo o mun


Sinais de Estresse: Clima e Água

do _ e em ritmo acelerado. (Vide Tabela 2-1.) A massa de neve e gelo está diminuindo nas principais cordilheiras mundiais: as Montanhas Rochosas, Andes, Alpes e Himalaia. No Glacier National Park, em Montana, a quantidade de geleiras reduziu-se de 150 em 1850 para menos de 50 hoje. A U.S. Geological Survey projeta o desaparecimento das geleiras remanescentes para os próximos 30 anos.18

Nos Alpes europeus, o recuo do volume glacial em mais da metade, desde 1850, deverá continuar com o desaparecimento de grande parte dessas geleiras antigas ao longo do próximo meio século. O recuo de massas de gelo no Himalaia acelerou-se de forma alarmante. No leste da Índia, a geleira Dokriani Banak, que regrediu 16,5 metros entre 1992 e 1997, recuou mais 20 metros só em 1998.19

Um relatório de pesquisa, por Lonnie Thompson, da Universidade Estadual de Ohio, indica que a calota de gelo do Kilimanjaro poderá desaparecer dentro de 15 anos. Isso desagradou o Ministro do Turismo de Tanzânia, Zokia Meghji, que declarou ao Parlamento que o degelo projetado era exagerado, tentando dissipar temores quanto aos impactos no lucrativo setor turístico do país. Em resposta, Thompson assinalou que seu relatório estava fundamentado numa extrapolação da recente tendência histórica. 20

Os pesquisadores estão descobrindo que um aumento modesto da temperatura, entre 1-2 graus centígrados, em regiões montanhosas pode alterar dramaticamente o mix de precipitações, aumentando a parcela que cai como chuva e diminuindo a parcela que cai como neve. O resultado são mais enchentes durante a estação chuvosa, encolhimento da massa neve/gelo e menos degelo para alimentar os rios durante a estiagem.21

Esses "reservatórios do céu," onde a natureza armazena água doce para uso no verão, quando a neve derrete, sempre estiveram lá, desde que a irrigação começou, fornecendo água para os agricultores durante milhares de anos. Agora, subitamente, em questão de anos, estão se reduzindo e alguns podem desaparecer totalmente, diminuindo de maneira drástica o suprimento de água para irrigação e para as cidades.

Se a maciça manta de gelo/neve do Himalaia _ a terceira maior do mundo, após a Antártica e Groelândia _ continuar a derreter, afetará o abastecimento de água de grande parte da Ásia. Todos os principais rios da região _ Indus, Ganges, Mekong, Yangtzé Amarelo _ nascem no Himalaia. O degelo nessa área pode alterar a hidrologia de vários


Eco-EConomia

Tabela 2-1. Exemplos Selecionados do Degelo, Mundialmente


Nome

Gelo Marinho

Ártico

Manta de Gelo

Groelândia

Geleira

National Park

Plataforma de Gelo Larsen B.

Geleira

Dokriani Bamak

Montanhas

Tien Shan

Montanhas do

Cáucaso

Alpes

Kilimanjaro

Geleira

Quelccaya

Localização

Oceano

Ártico

Groelândia

Montanhas Rochosas,

Estados

Unidos

Península

Antártica

Himalaia,

Índia

Ásia Central

Rússia

Europa

Ocidental

Tanzânia

Andes

Peru

Perda Medida

Encolheu 6% desde 1978, perdendo 14% da espessura do gelo perene. Afinou 40% em menos de 30 anos.

Afinou mais de um metro por ano em suas bordas sul e leste, desde 1993.

Desde 1850, a quantidade de geleiras caiu de 150 para menos de 50. As geleiras remanescentes poderão desaparecer totalmente dentro de 30 anos.

Deslocou um iceberg de 300 quilômetros quadrados no início de 1998. Perdeu 1.714 quilômetros quadrados durante o verão 1998-99 e 300 quilômetros quadrados durante o verão 1999-2000.

Recuou 20 metros em 1998, comparado com 16,5 metros ao longo dos cinco anos anteriores.

22% do volume do gelo glacial desapareceu nos últimos 40 anos.

O volume glacial caiu 50 % no último século.

O volume glacial encolheu mais de 50 % desde 1850. As geleiras poderão ficar reduzidas a apenas uma pequena fração da sua massa atual dentro de décadas.

O gelo perene encolheu 33% entre 1989 e 2000. Poderá desaparecer por completo até 2015.

A taxa de recuo aumentou 30 metros por ano na década de 90, contra uma média de apenas 3 metros anuais; provavelmente desaparecerá antes de 2020.


Fonte: Dados atualizados de Lisa Mastny, "Melting of Earth's Ice Cover Reaches New High," Worldwatch News Brief (Washington, DC: Worldwatch Institute: 6 de março de 2000).


Sinais de Estresse: Clima e Água

países asiáticos, incluindo Paquistão, Índia, Bangladesh, Tailândia, Vietnã e China. Um menor degelo de neve no verão para alimentar os rios poderá agravar a pobreza hidrológica que já aflige grande parte da região.22

Não precisamos ficar sentados, apreciando esse cenário se desenrolar. Ainda pode haver tempo para estabilizar os níveis atmosféricos de CO2, antes que as emissões de carbono causem mudanças incontroláveis do clima. Há uma abundância de energia eólica, solar e geotérmica a ser dominada para mover a economia mundial. (Vide Capítulo 5.) Se reduzíssemos o imposto de renda e o compensássemos pela incorporação de um imposto de carbono que refletisse o custo da perturbação climática no preço dos combustíveis fósseis, os investimentos rapidamente se deslocariam dos combustíveis fósseis para essas fontes de energia estabilizadoras do clima.

Elevação dos Oceanos

O nível do mar é um indicador sensível do aquecimento global uma vez que afeta tanto a expansão térmica, quanto o degelo de geleiras terrestres. As contribuições da expansão térmica e do degelo para o aumento do nível do mar são estimadas como aproximadamente idênticas.23

Durante o Século XX, o nível do mar se elevou 10 _20 centímetros, mais da metade do que havia subido durante os 2.000 anos anteriores. Caso a temperatura da Terra continue a aumentar, a perspectiva é de maior aceleração. O modelo utilizado na Avaliação de 2001 do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática projeta uma elevação possível do nível do mar em até 1 metro durante o Século XXI.24

A elevação dos oceanos tem inúmeras conseqüências. A mais óbvia é inundação, à medida que os oceanos se expandem às custas dos continentes. Outra é a intrusão de água salgada. Quando o nível do mar se eleva, a água salgada pode invadir aqüíferos costeiros de água doce. Essa intrusão é agravada pelo declínio dos lençóis freáticos que hoje aflige regiões costeiras em muitos países, incluindo Israel, Paquistão, Índia e China. Um terceiro impacto é erosão das praias: à medida que as ondas quebram mais para dentro dos litorais, erodem a praia, aumentando o impacto da elevação do mar.25

O efeito de mais fácil mensuração da elevação do nível do mar é a inundação de áreas costeiras. Donald F. Boesch, do Centro de Ciências


Eco-EConomia

Ambientais da Universidade de Maryland, calcula que, para cada milímetro de elevação do nível do mar, o litoral regride, em média, 1,5 metro. Assim, se o nível do mar aumentar 1 metro, o litoral recuará 1.500 metros.26

Com uma elevação de 1 metro, mais de um terço de Xangai ficaria submerso. Na China como um todo, 70 milhões de pessoas estariam vulneráveis a uma ressaca de 100 anos. Os arrozais das baixadas ribeirinhas e deltas da Ásia estariam particularmente ameaçados. Uma análise do Banco Mundial demonstra que Bangladesh seria mais gravemente afetada, perdendo metade da sua produção de arroz _ o alimento básico de sua população de 140 milhões de pessoas. (Vide Figura 2-4.) Ao preço atual do arroz, isso custaria a Bangladesh US$ 3,2 bilhões. Os moradores dos vales fluviais densamente habitados da Ásia seriam forçados a se deslocar para regiões interioranas, já com excesso populacional. A elevação do nível do mar poderá criar milhões de refugiados climáticos em Bangladesh, China, Índia, Indonésia, Filipinas e Vietnã.27

Dois terços das Ilhas Marshall e Kiribati estariam submersos. Os Estados Unidos perderiam 36.000 quilômetros quadrados de área, com os Estados do Atlântico e do Golfo do Mississipi perdendo uma área maior. E grandes áreas do centro de Manhattan e da Colina do Capitólio em Washington, D.C. ficariam inundadas durante uma ressaca de 50 anos. Uma elevação de 1 metro no Japão significaria que 2.340 quilômetros quadrados do país ficariam abaixo da preamar. Quatro milhões de japoneses seriam afetados, muitos deles desabrigados.28

Os valores imobiliários costeiros provavelmente serão um dos primeiros indicadores econômicos a refletir a elevação do nível do mar. Pessoas com altos investimentos em propriedades à beira-mar serão as mais afetadas. Um aumento de meio metro do nível do mar nos Estados Unidos causaria prejuízos de US$ 20 a US$ 150 bilhões. Propriedades frente ao mar, da mesma forma que usinas nucleares, não conseguem mais obter cobertura de seguro _ como muitos proprietários na Flórida, por exemplo, já descobriram.29

Muitos países em desenvolvimento, já enfrentando crescimento populacional e competição intensa por espaços para moradia e agricultura, estão hoje diante da perspectiva de elevação do nível do mar e perdas substanciais de terras. Alguns dos mais diretamente afetados foram os que menos contribuíram para o acúmulo de CO2 atmosférico


Sinais de Estresse: Clima e Água

Figura 2-4. Uma elevação de 1 metro no nível do mar reduziria a

produção de arroz de Bangladesh aproximadamente à metade

que está causando este problema.

A elevação dos oceanos apresenta opções difíceis e custosas. Consideremos, por exemplo, o custo e esforço envolvidos no reassentamento de milhões de chineses da área a ser inundada pela Barragem das Três Gargantas. Quando o oceano se elevar, caso continuemos com o status quo, isso será trivial, comparado com as dezenas de milhares e, posteriormente, centenas de milhões da Ásia que terão que ser reassentados. Refugiados climáticos poderão vir a dominar o fluxo internacional de migrantes uma vez que perderão não apenas suas terras, mas também seu alimento e meio de vida.30

Mais de 90% do gelo mundial está na manta da Antártica a qual, devido em parte ao seu tamanho, está relativamente estável. Os 10% restantes, entretanto, estão na manta de gelo e geleiras montanhosas da


Eco-EConomia

Groelândia, mais vulneráveis à mudança climática. Agora que a manta de gelo da Groelândia começou a derreter, cabe a pergunta: "E se essa tendência continuar?" A manta de gelo da Groelândia tem 2 quilômetros de espessura em algumas áreas. Num artigo em Science, cientistas da NASA calculam que, caso a manta de gelo da Groelândia desaparecesse por completo, a elevação do nível do mar atingiria 7 assustadores metros, encolhendo gravemente a área terrestre e submergindo muitas cidades litorâneas.31

Pela primeira vez, desde o início da civilização, o nível do mar começou a se elevar em taxas mensuráveis. Tornou-se um indicador a ser observado, uma tendência que poderá forçar uma migração humana de dimensões quase inimagináveis e que determinará a perspectiva humana. Também suscita perguntas sobre responsabilidades intergeracionais jamais enfrentadas pela humanidade.

Tempestades Mais Destrutivas

Temperaturas em elevação e a força das tempestades têm uma relação direta. À medida que a temperatura da superfície do mar se eleva, particularmente nas regiões tropicais e subtropicais, o calor adicional que se irradia para a atmosfera provoca tempestades mais destrutivas. Temperaturas mais altas significam maior evaporação. A água que sobe forçosamente terá que cair. O que não está claro é o local exato onde essa água adicional se precipitará.32

Eventos climáticos mais extremos são mais preocupantes para os países no cinturão de furacões e tufões. Entre os mais diretamente afetados pela maior intensidade das tempestades estão: China, Japão e Filipinas no oeste do Pacífico, Índia e Bangladesh na Baía de Bengala, os Estados Unidos, e os países da América Central e Caribe no oeste do Atlântico.

Munich Re, companhia de resseguros, possui dados mundiais detalhados sobre catástrofes naturais _ principalmente tempestades, enchentes e terremotos _ referentes ao último meio século. A empresa define uma grande catástrofe natural como uma que supere a capacidade de uma região de ajudar a si mesma, forçando-a a depender de assistência internacional. Durante os anos 60, os prejuízos econômicos causados por essas catástrofes em larga escala totalizaram US$ 69 bilhões; durante os anos 90, atingiram US$ 536 bilhões, quase oito vezes mais.33


Sinais de Estresse: Clima e Água

Nos anos recentes, ocorreram tempestades tropicais extraordinariamente destrutivas. Entre elas, o Furacão Andrew, que devastou uma grande faixa através da Flórida em 1992. Alertas de tempestades mantiveram a perda de vidas humanas em 65, porém Andrew destruiu 60.000 lares e outros prédios, causando danos de cerca de US$ 30 bilhões. Além dos prédios destruídos, também levou consigo sete companhias de seguros, que se tornaram insolventes com o acúmulo de indenizações.34

Seis anos depois, o Furacão Georges _ uma forte tempestade com ventos que chegaram próximos a 320 quilômetros por hora _ permaneceu ao largo do litoral da América Central devido a um sistema de alta pressão que bloqueou seu trajeto normal para o norte. Ceifou 4.000 vidas e causou um prejuízo gigantesco de US$ 10 bilhões a El Salvador e Nicarágua. Danos desse porte, chegando perto do Produto Interno Bruto desses dois países, atrasaram o desenvolvimento econômico em uma geração. Uma tempestade que atingiu a Venezuela, em meados de dezembro de 1999, causou grandes enchentes e deslizamentos, ceifou 20.000 vidas e registrou perdas econômicas de US$ 15 bilhões _ inferior apenas ao Furacão Andrew.35

No final de setembro de 1999, o Tufão Bart atingiu a ilha densamente habitada de Kyushu, no Japão. O custo em vidas humanas foi mantido em apenas 26, porém causou prejuízos de US$ 5 bilhões. Países como Japão, China e Filipinas estão situados em locais extremamente vulneráveis, totalmente expostos a todo o poder que as tormentas geradas ao longo do Pacífico tropical podem acumular.36

Tempestades de inverno também estão se tornando mais destrutivas no hemisfério norte. S.J. Lambert, escrevendo no Journal of Geophysical Research, analisou a freqüência de tempestades intensas de inverno neste hemisfério, durante o último século. Entre 1920 e 1970, ocorreram aproximadamente 40 tempestades por ano. Mas, quando as temperaturas começaram a se elevar, também aumentou a freqüência das tempestades. Desde 1985, o hemisfério norte sofreu quase 80 tempestades anuais _ o dobro em menos de uma geração. Ao longo da última década, a Europa Ocidental foi assolada por inúmeras tempestades altamente destrutivas. Em 1987, o Reino Unido e a França sofreram o peso de uma tempestade de inverno que ceifou 17 vidas e causou prejuízos de US$ 3,7 bilhões. Em 1999, a Europa Ocidental sofreu o impacto de três tempestades de inverno de rara potência: Anatole,


Eco-EConomia

Martim e Lothar. Mataram 150 pessoas e causaram danos de US$ 10,3 bilhões. Lothar, que assolou o continente durante os feriados de 26 de dezembro, deixou um rastro de danos, totalizando US$ 7,5 bilhões na França, Alemanha e Suíça.37

Os danos causados por tempestades estão se escalando, tanto devido à maior densidade populacional quanto pelo aumento inusitado de investimentos per capita em habitações ou outras estruturas vulneráveis a danos por tempestades. Há também um aumento desproporcional de construções em regiões costeiras, muito mais vulneráveis a tempestades e ressacas.

O fato é que as tempestades estão aumentando tanto em quantidade quanto em capacidade destrutiva. Tempestades mais poderosas significam maiores danos. Uma duplicação do número de tempestades de inverno no hemisfério norte, em menos de uma geração, aliada à maior intensidade, gera um aumento dramático em danos.

Nesta altura, ninguém sabe exatamente como essa tendência se desenvolverá no Século XXI, mas parece provável que, mantido o status quo e níveis de CO2 continuando a subir, a destruição futura terá uma magnitude jamais vista_ da mesma forma que a capacidade destrutiva atual é imensamente superior à do passado recente. O risco é que o custo do enfrentamento dessas catástrofes, induzidas pela atividade humana e cada vez mais destrutivas, poderá subjugar algumas sociedades, levando-as ao declínio econômico.

Exaustão dos Rios

Vivemos num mundo desafiado pela água, uma situação que é agravada anualmente quando 80 milhões de pessoas adicionais reclamam seus direitos aos recursos hídricos da Terra. Mesmo agora, muitas pessoas nos países em desenvolvimento não dispõem de água suficiente para satisfazer suas necessidades básicas de consumo, banho e produção de alimentos.

Até 2050, a Índia deverá ter um acréscimo populacional de 563 milhões de pessoas, e a China, 187 milhões. O Paquistão, um dos países mais áridos do mundo, deverá acrescer 200 milhões, aumentando dos 141 milhões atuais para 344 milhões. Egito, Irã e México têm um aumento populacional projetado em mais 50%, ou mais, até 2050. Nesses e em outros países com déficits hídricos, o crescimento populacional continuado está condenando centenas de milhões de pes


Sinais de Estresse: Clima e Água

soas à pobreza hidrológica _ uma forma local de empobrecimento difícil de se escapar.38

Uma manifestação da escassez hídrica emergente são rios secos. Vários dos principais rios mundiais hoje estão secos durante certo período do ano, deixando de alcançar o mar, ou têm pouca vazão quando o atingem.39

Como observado anteriormente, o Amu Darya, na Ásia Central, um dos dois rios que deságuam no Mar de Aral, está hoje praticamente seco pela ação de produtores de algodão da Turquia e Uzbequistão. Sem a alimentação constante desse rio e a vazão do Syr Darya reduzida a uma sombra do que foi no passado, o Mar de Aral encolhe sob o impiedoso sol dessa região semi-árida. Desde 1960, o mar recuou 12 metros; sua área encolheu 40 % e seu volume 66 %. Cidades outrora costeiras hoje distam 50 quilômetros da água. Se essas tendências continuarem, o mar secará por completo dentro de uma década ou duas _ existindo apenas em velhos mapas como uma memória geográfica.40

À medida que o mar encolheu, a concentração salina das suas águas aumentou a ponto de não permitir a sobrevivência dos peixes. Conseqüentemente, o pesqueiro _ que já produziu um total de 60.000 toneladas por ano nos anos 60 _ hoje está morto.41.

Em 1990, a Academia Soviética de Ciência realizou uma conferência chamada "O Mar de Aral: Uma Catástrofe Ambiental", em Nukus, uma cidade próxima ao Mar de Aral. Após a reunião, juntei-me a outros convidados numa excursão aérea sobre o mar e seu antigo leito. Posteriormente, escrevi na revista World Watch: Visto do ar, o leito do Mar de Aral parece uma paisagem lunar. Não se vê vida vegetal ou animal. A algumas centenas de metros acima do solo, num velho biplano monomotor, de asas de lona, os sinais de um ecossistema moribundo são evidentes. Vilas pesqueiras que outrora se mantinham à beira-mar estão abandonadas, a quilômetros de distância das águas em recuo. Como cidades-fantasmas mineiras do velho Oeste americano, reforçam a imagem de um ecossistema moribundo e uma economia agonizante.42

Quando os rios secam, seus ecossistemas marinhos são destruídos. Os estuários, às vezes, também são afetados. Por exemplo, quando o Rio Colorado fluía para o Golfo da Califórnia, proporcionava uma pesca volumosa, sustentando várias centenas de famílias de índios Cocopa. Hoje, é apenas um resquício do que já foi.43


Eco-EConomia

Desvios a montante do Rio Amarelo, da China, para as cidades, indústrias e irrigação se multiplicam. Após fluir ininterruptamente durante milhares de anos, esse berço da civilização chinesa secou em 1972, deixando de alcançar o mar durante cerca de 15 dias.. Nos anos seguintes, secou intermitentemente até 1985. Desde então, seca durante um período do ano. Em 1997, ano de seca, o Rio Amarelo não chegou ao mar durante 226 dias.44

Na realidade, durante a maior parte do ano de 1997, o rio não conseguiu alcançar nem a Província de Shandog, a última das oito províncias que atravessa a caminho do mar. Shandong, que produz um quinto do milho e um sétimo do trigo da China, é mais importante em termos agrícolas para a China do que Iowa e Kansas juntos são para os Estados Unidos. Metade da água de irrigação da província vinha do Rio Amarelo, mas essa fonte está se exaurindo. A outra metade vem de um aqüífero cujo lençol d'água se reduz à taxa de 1,5 metro por ano.45

À medida que mais e mais água é desviada para indústrias e cidades a montante, há menor disponibilidade a jusante. Beijing está permitindo que as províncias pobres a montante desviem a água para seu desenvolvimento, às custas da agricultura nas baixadas da bacia.

Um entre centenas de projetos de desvio de água do Rio Amarelo nas cabeceiras é um canal que levará água para Hohhot, a capital da Mongólia Central, a partir de 2003. Isso ajudará a atender às crescentes necessidades residenciais, como também àquelas das indústrias em expansão, inclusive a importante indústria têxtil de algodão, suprida pelos imenso rebanho ovino da região. Outro canal desviará água para Taiyuan, capital da Província de Shanxi, uma cidade de 4 milhões de habitantes que hoje raciona a água.46

As demandas crescentes a montante do Rio Amarelo significam que, um dia, talvez nem chegue à Província de Shandong, eliminando cerca da metade de sua água de irrigação. A perspectiva então de importações maciças de grãos e a dependência crescente, particularmente dos grãos dos Estados Unidos, deixam os líderes políticos de Beijing insones.47

Outro rio que está deixando políticos insones é o Nilo, já que suas águas devem ser alocadas não entre províncias, como na China, mas entre países. Dez nações compartilham a bacia do Nilo, mas apenas três _ Egito, Sudão e Etiópia _ predominam. 85% da vazão do Nilo se origina na Etiópia, mas a parte do leão é utilizada pelo Egito. Grande


Sinais de Estresse: Clima e Água

parte do restante é consumida no Sudão. Quando esses países se saciam, chega muito pouca água no Mediterrâneo.48

O Egito, onde as chuvas são muito escassas, é totalmente dependente do Nilo. Sem esse recurso vital, o Egito não existiria. Mesmo que toda a água do Nilo estivesse disponível para o Egito, ainda assim teria que importar grãos para alimentar sua população atual. Mas, já importa 40% do seu consumo e sua população, hoje de 68 milhões, está estimada a dobrar para 114 milhões até 2050. A população do Sudão, com crescimento ainda maior, deverá aumentar de 31 milhões hoje para 64 milhões até 2050, mais do que duplicando suas necessidades hídricas.49

Na Etiópia, com o maior índice de precipitação que alimenta o Nilo, o crescimento populacional é ainda mais acelerado. Com cada família tendo, em média, 6 filhos, sua população triplicará de 63 milhões no final de 2000 para 186 milhões até 2050. Até agora, a Etiópia construiu apenas 200 barragens muito pequenas, possibilitando o uso de 500 milhões de metros cúbicos dos 84 bilhões de metros cúbicos da vazão do Nilo, ou menos de 1 %. Porém o Governo planeja explorar muito mais seus recursos hídricos, a fim de ampliar a produção de alimentos e fornecer eletricidade, no esforço de retirar sua população da pobreza.50

O Nilo, como o Rio Amarelo, sofre grande disparidade de renda entre a nascente e a foz. É difícil conceber que a Etiópia, com uma renda per capita que mal atinge US$ 100, não utiliza as águas superiores para seu próprio desenvolvimento, mesmo que seja às custas do Egito, que tem uma renda per capita superior a US$ 1.000. Se as nações da bacia não estabilizarem rapidamente suas populações, correm o risco de se ver condenadas à pobreza hidrológica.51

Outras bacias fluviais onde a competição pela água está se intensificando incluem as do Jordão, Ganges e Mekong. A competição pelo Jordão, entre Israel , Jordânia e os Palestinos, é conhecida. O Jordão, que flui do Líbano para Israel, onde se junta ao Mar da Galiléia e posteriormente desemboca no Mar Morto, está sendo pressionado. Conseqüentemente, o nível de água do Mar da Galiléia está caindo gradativamente, e o Mar Morto está encolhendo.52

Caso a Índia, que divide o Ganges com Bangladesh, utilizasse toda a água que desejasse, talvez o Ganges não atingisse Bangladesh durante a época de estiagem. Felizmente, porém, foi assinado um tratado


Eco-EConomia

que aloca um volume pré-estabelecido de água para Bangladesh. A competição na bacia do Mekong também está se intensificando. À medida que a China constrói barragens no Alto Mekong, diminui a disponibilidade de água para o Camboja, Laos e Vietnã _ países cujas culturas de arroz depende da água do Mekong.53

Queda dos Lençóis Freáticos

Concomitante com o esgotamento dos rios, os lençóis freáticos estão em queda em todos os continentes, à medida que a demanda pela água supera a produção sustentável dos aqüíferos. A extração excessiva é um fenômeno novo, restrito, em grande parte, ao último meio século. Só após o desenvolvimento de poderosas bombas elétricas e a diesel foi que adquirimos a capacidade de extrair água dos aqüíferos com maior rapidez do que é substituída pela chuva.

A extração excessiva é hoje generalizada na China, Índia e Estados Unidos _ três países que, em conjunto, colhem quase metade dos grãos mundiais. Os lençóis freáticos estão em queda sob a planície do norte da China, produtora de 25% dos grãos do país; do Punjab indiano, o celeiro da Índia; e sob as grandes planícies, no sul dos Estados Unidos.54

Hidrologicamente, existem duas Chinas _ o sul, úmido, que inclui a bacia do Yangtzé e tudo mais ao sul dela, e o norte árido, que inclui a bacia to Rio Amarelo, e tudo o mais ao norte. O sul, com 700 milhões de habitantes, possui um terço das terras agrícolas do país e quatro quintos de seus mananciais. O norte, com 550 milhões de habitantes, tem dois terços das terras agrícolas e um quinto da água. A água por hectare de terra agrícola no norte representa um oitavo daquela do sul.55

O norte da China está secando à medida que a demanda pela água supera a oferta, exaurindo os aqüíferos. Em 1999, o lençol freático sob Beijing caiu 1,5 metro. Desde 1965, o lençol raso sob a cidade já diminuiu cerca de 59 metros. O aqüífero profundo de onde alguns poços extraem água podem ter caído ainda mais. Um relatório do Banco Mundial, de 2001, declara que "Indícios empíricos sugerem que os poços profundos em torno de Beijing hoje têm que penetrar 1.000 metros até encontrar água doce, encarecendo dramaticamente o custo de abastecimento." A queda dos lençóis freáticos sob a capital alerta os líderes chineses para a escassez futura, quando os aqüíferos estiverem exauridos.56


Sinais de Estresse: Clima e Água

A planície norte da China, uma região que abrange desde o norte de Xangai até muito ao norte de Beijing, cobre cinco províncias: Hebei, Henan e Shandong, e as províncias urbanas de Beijing e Tianjin. No final de 1997, dados oficiais mostram que estas cinco províncias possuíam 2,6 milhões de poços, a maioria para irrigação. Durante aquele ano, 99.900 poços foram abandonados, aparentemente por terem secado, quando o lençol freático caiu. Cerca de 221.900 poços novos foram perfurados. Em duas grandes cidades, Beijing e Tianjin, a quantidade de poços abandonados excedeu o número de poços perfurados. Esse abandono em massa não tem precedente. A perfuração de tantos poços novos reflete a busca desesperada pela água quando os lençóis caem.57

Embora dados anteriores tenham mostrado uma queda média do lençol de 1,5 metro por ano sob a planície norte da China, esses dados recentes sobre o abandono de poços e novas perfurações indicam que podem estar caindo mais rapidamente em alguns locais. A exaustão é maior na bacia do Rio Hai, logo ao norte da bacia do Rio Amarelo. Essa área, que inclui Beijing e Tianjin, ambas grandes cidades industriais, abriga mais de 100 milhões de pessoas.58

O consumo de água na bacia, atualmente, é de 55 bilhões de metros cúbicos anuais, enquanto o abastecimento sustentável totaliza apenas 34 bilhões de metros cúbicos, deixando um déficit anual de 21 bilhões de metros cúbicos a ser atendido pela extração de água subterrânea. Quando esse aqüífero estiver exaurido, o bombeamento necessariamente cairá até a produção sustentável, reduzindo o suprimento de água da bacia em quase 40 %. Considerando o rápido crescimento urbano e industrial da região, e a agricultura estar relegada ao terceiro lugar na preferência pela água, a agricultura irrigada da bacia poderá desaparecer, em grande parte, até 2010 _ forçando uma mudança para uma agricultura menos produtiva, alimentada pela chuva. O relatório do Banco Mundial de 2001 concluiu que a situação hídrica do norte da China, em rápida deterioração, poderá ter "conseqüências catastróficas para as gerações futuras, caso o consumo e abastecimento não possam ser rapidamente equacionados."59

Além das perdas de água de irrigação devido à exaustão dos aqüíferos, os agricultores enfrentam um desvio de água de irrigação para as cidades e indústrias. Entre hoje e 2010, quando a população chinesa deverá crescer em cerca de 126 milhões, o Banco Mundial


Eco-EConomia

projeta que a demanda de água urbana da nação aumentará de 50 bilhões de metros cúbicos, para 80 bilhões, um aumento de 60 %. Enquanto isso, a demanda por água industrial está estimada a crescer de 127 bilhões de metros cúbicos para 206 bilhões, um aumento de 62 %. Em grande parte do norte da China, essa demanda crescente pela água está sendo atendida por investimentos em eficiência hídrica ou pela retirada da água de irrigação da agricultura.60

Sob o Punjab indiano, onde o cultivo duplo de alta produtividade de trigo no inverno e arroz no verão gera um superávit de grãos para embarque para outros estados, o lençol freático está caindo. Reduzindo-se cerca de 0,6 metro por ano, está forçando os agricultores com poços rasos a perfurarem mais profundamente.61

Ao sul das Great Plains, nos Estados Unidos, a agricultura irrigada se baseia principalmente na água extraída do aqüífero Ogallala, que é essencialmente um aqüífero fóssil com pouca recarga. À medida que o volume de água se reduz e o aqüífero é exaurido, os agricultores são forçados a abandonar a agricultura irrigada, retornando ao cultivo a seco. Em vários estados que dominam a produção de alimentos dos Estados Unidos, inclusive Colorado, Kansas, Oklahoma e Texas, a área irrigada está encolhendo lentamente, à medida que o Ogallala é exaurido.62

Uma análise econômica da situação hídrica nos planaltos texanos, onde se localiza a maior parte das terras agrícolas irrigadas do estado, concluiu que a produção da região cairá constantemente, à medida que o abastecimento se reduz. Os grandes perdedores, entre 2000 e 2025, serão os grãos de ração irrigados, incluindo milho e sorgo. A área cultivada com trigo, uma lavoura seca, aumentará ligeiramente. No todo, a produção de grãos deverá cair 17 %. Uma análise detalhada semelhante para os estados vizinhos, como Oklahoma e Kansas, provavelmente revelará declínios de produção para as lavouras mais dependentes de água.63

No sul do Texas, El Paso e sua cidade irmã além da fronteira mexicana, Juarez, extraem sua água do mesmo aqüífero. Com o aumento populacional nas duas cidades em crescimento acelerado, a demanda ultrapassou a produção sustentável do aqüífero. David Hurlbut, analista da Comissão dos Serviços Públicos do Texas, acredita que, devido ao seu fracasso em lidar eficazmente com a questão de abastecimento de água, as duas cidades se encaminham para a falência hidrológica.64


Sinais de Estresse: Clima e Água

Com o crescimento populacional contínuo, a situação hídrica mundial só poderá se agravar. Já com a população atual, de 6,1 bilhões, o mundo tem um imenso déficit hídrico. Por meio de dados sobre a extração excessiva na China, Índia, Arábia Saudita, África do Norte e Estados Unidos, Sandra Postel, autora de Pillar of Sand, calcula a exaustão anual dos aqüíferos em 160 bilhões de metros cúbicos, ou 160 bilhões de toneladas. Tomando-se uma base empírica de 1.000 toneladas de água para produzir 1 tonelada de grãos, esses 160 bilhões de toneladas de déficit hídrico equivalem a 160 milhões de toneladas de grãos _ ou metade da colheita dos Estados Unidos.65

Na média per capita mundial do consumo de grãos, de pouco mais de 300 quilos anuais, ou um terço de uma tonelada, 160 milhões de toneladas de grãos alimentariam 480 milhões de pessoas. Em outras palavras, 480 milhões das 6,1 bilhões de pessoas do mundo estão sendo alimentadas com grãos produzidos com o uso insustentável da água. Estamos nos alimentando com a água que pertence aos nossos filhos.66

Enfrentamento à Escassez Hídrica

Cerca de 70% da água consumida mundialmente, incluindo a que é desviada dos rios e a bombeada do subsolo, são utilizados para irrigação. Aproximadamente 20% vão para a indústria e 10% para as residências. Na competição cada vez mais intensa pela água entre esses setores, a agricultura quase sempre sai perdendo. Na China, 1.000 toneladas de água podem ser utilizadas para produzir 1 tonelada de trigo, valendo talvez US$ 200, ou para ampliar a produção industrial em US$ 14.000 _ 70 vezes mais. Num país buscando desesperadamente o crescimento econômico e os empregos que gera, o ganho no desvio da água da agricultura para a indústria é óbvio. A ciência econômica da água ajuda a explicar por que, no Oeste americano, a venda pelos agricultores de direitos de água de irrigação para os centros urbanos é cada vez mais comum.67

A urbanização, industrialização e manutenção dos ecossistemas também ampliam a demanda pela água. À medida que a população rural nos países em desenvolvimento, tradicionalmente dependente do poço da aldeia, muda para prédios residenciais urbanos com água encanada, o consumo pode facilmente triplicar. A industrialização consome ainda mais água que a urbanização.

A afluência gera demanda adicional. Por exemplo, à medida que as


Eco-EConomia

pessoas ascendem na cadeia alimentícia e passam a comer mais carne bovina, suína, aves, ovos e laticínios, consomem mais grãos. Uma dieta americana, rica em produtos pecuários, requer quatro vezes mais grãos por pessoa que uma dieta baseada no arroz num país como a Índia. O consumo quatro vezes maior de grãos por pessoa significa igual crescimento no consumo de água.68

Outrora um fenômeno localizado, hoje a escassez de água rompe fronteiras, por meio do comércio internacional de grãos. O mercado importador de grãos com maior crescimento no mundo é o da África do Norte e Oriente Médio, área que inclui Marrocos, Argélia, Tunísia Líbia, Egito e países a leste, até o Irã. Praticamente cada país nessa região está sofrendo simultaneamente escassez de água e crescimento populacional acelerado.69

À medida que aumenta a demanda de água pelas cidades e indústrias da região, ela é atendida pelo desvio da água de irrigação. A perda da capacidade de produção de alimentos é então compensada pela importação de grãos do exterior. É a forma mais eficiente para países com déficit hídrico importarem água, uma vez que 1 tonelada de grãos representa mil toneladas do líquido.

Em 2000, o Irã importou 7 milhões de toneladas de trigo, ultrapassando o Japão _ durante décadas, o maior importador mundial de trigo. Em 2001, projeta-se que o Egito também ultrapasse o Japão. Irã e Egito têm uma população de quase 70 milhões cada. Em ambos os países, a população está aumentando em mais de 1 milhão de pessoas por ano, e ambos enfrentam escassez hídrica aguda.70

A água necessária para produzir o grão e outros alimentos importados pela África do Norte e Oriente Médio, em 2000, foi aproximadamente igual à vazão anual do Nilo. Em outros palavras, o déficit hídrico acelerado dessa região é igual a outro Nilo fluindo na região, sob a forma de grãos importados.71

É muito comum ouvir hoje em dia que as guerras futuras na região provavelmente envolverão a disputa pela água e não pelo petróleo. Talvez. Mas, considerando a dificuldade de se vencer uma guerra da água, a competição pelo precioso líquido provavelmente deverá ocorrer nos mercados mundiais de grãos. Os países que "ganharão" essa competição serão aqueles com maior força financeira e não militar.72

O déficit hídrico mundial, medido pela extração excessiva de aqüíferos, aumenta a cada ano, tornando-o cada vez mais difícil de ser


Sinais de Estresse: Clima e Água

administrado. Se todos os países decidissem hoje acabar com a extração excessiva e estabilizar os lençóis freáticos, a colheita mundial de grãos sofreria uma redução de aproximadamente 160 milhões de toneladas, ou 8%, e os preços disparariam. Quanto mais os países demorarem a enfrentar essa questão, mais elevado será o déficit hídrico e maior o ajuste final.

Se os governos dos países carentes de água não adotarem medidas urgentes para estabilizar a população e elevar a produtividade hídrica, a escassez de água em pouco tempo se transformará em falta de alimentos. No número crescente de países com déficit hídrico, incluindo os gigantes China e Índia, o risco é que a necessidade de importar grãos suplante a oferta exportável dos países com excedentes de alimentos, como os Estados Unidos, França, Canadá e Austrália. E isso, por sua vez, desestabilizará os mercados mundiais de grãos.

A situação da água está deteriorando rapidamente em muitos países, mas é o déficit hídrico acelerado da China que provavelmente afetará todo o mundo. Uma combinação de 12 milhões de pessoas a mais anualmente, a urbanização, a taxa projetada de crescimento econômico de 7 % e o movimento contínuo dos consumidores chineses ascendendo na cadeia alimentícia praticamente asseguram que a demanda pela água continuará a suplantar a oferta no futuro. Essas tendências também indicam que a necessidade de a China importar grãos poderá vir logo a crescer, da mesma forma que ocorreu, recentemente, com grande parte de sua importação de soja. Entre 1995 e 2000, a China passou da auto-suficiência em soja para o maior comprador mundial, importando mais de 40 % das suas necessidades.73

A escassez de água poderá ser amenizada pela elevação das tarifas para reduzir desperdícios, aumentando assim a eficiência no seu uso. Na China, porém, é difícil. Um anúncio, no início de 2001, dizendo que o governo planejava elevar as tarifas de água gradativamente, ao longo dos próximos cinco anos, foi um passo certo na direção certa. Mas, para Beijing, essa opção está cheia de riscos políticos, uma vez que a resposta da população para o aumento do preço da água, que no passado era quase sempre grátis, assemelha-se àquela dos Estados Unidos, quando os preços da gasolina sobem.74

Outros anúncios recentes em Beijing indicam que o governo abandonou oficialmente sua velha política de auto-suficiência em grãos. A China também anunciou que, diante da intensa competição pela água,


Eco-EConomia

os centros urbanos e a indústria terão prioridade _ deixando a agricultura como reclamante residual.75

Como observado, a China não está só no enfrentamento à escassez hídrica. Outros países onde a escassez está elevando as importações de grãos, ou ameaçando fazê-lo, incluem Índia, Paquistão, México e dezenas de nações menores. Porém, apenas a China _ com quase 1,3 bilhões de pessoas e um superávit comercial com os Estados Unidos de US$ 80 bilhões anuais _ tem, no curto prazo, o potencial de desequilibrar os mercados mundiais de grãos. Em suma, lençóis freáticos em queda na China poderão em breve significar aumento de preços de alimentos em todo o mundo.76


Sinais de Estresse: A Base Biológica

3


Sinais de Estresse:

A Base Biológica

Em abril de 2001, os cientistas do laboratório da Associação Oceânica e Atmosférica Nacional, em Boulder, Colorado, divulgaram que uma imensa tempestade de pó, vinda do norte da China, havia atingido os Estados Unidos, "cobrindo com uma camada de poeira uma extensa área do Canadá ao Arizona." Os habitantes do sopé das Montanhas Rochosas nem podiam vê-las. Poucos americanos sabiam que o pó nos seus carros e a névoa sobre o oeste dos Estados Unidos era, na realidade, solo chinês.1

Essa tempestade de poeira da China, a mais severa entre uma dúzia delas durante a primavera de 2001, assinala uma deterioração generalizada dos pastos e lavouras no vasto noroeste daquele país. Essas gigantescas plumas de pó rotineiramente atravessam centenas de quilômetros em direção a cidades populosas do nordeste da China, inclusive Beijing _ obscurecendo o sol, reduzindo a visibilidade, congestionando o trânsito e fechando aeroportos. Notícias dos habitantes das cidades do leste calafetando janelas com trapos para se protegerem da poeira lembram a Dust Bowl NT americana dos anos 30.2


NT "Dust Bowl", no sudoeste dos EUA, uma região que, durante a grande Depressão da década de 1930, sofreu secas prolongadas com tempestades de poeira.


Eco-EConomia

Notícias da China caracteristicamente atribuíram as tempestades de poeira à seca dos últimos três anos, mas o que isto fez foi simplesmente trazer à baila uma conjuntura de deterioração acelerada. Excessos no cultivo e pastagem são práticas generalizadas. Os Estados Unidos, por exemplo, com área territorial e capacidade de pastos comparáveis à China, têm 98 milhões de cabeças de gado bovino e 9 milhões de ovinos e caprinos, enquanto a China hoje tem 127 milhões de cabeças de gado bovino e 279 milhões de ovinos e caprinos. Alimentar 1,3 bilhões de pessoas, uma população quase cinco vezes a dos Estados Unidos, não é uma tarefa fácil. Milhões de hectares de terra altamente vulneráveis à erosão e que deveriam ter sido mantidas com capim foram lavradas.3

A comprovação da intensificação do conflito entre a economia e o ecossistema do qual é parte é facilmente visível não apenas não regiões poeirentas que surgem na China, mas também nas florestas trópicais queimando na Indonésia, pesqueiros de bacalhau em colapso no Mar do Norte, queda de produtividade agrícola na África, ampliação da zona morta no Golfo do México e a diminuição dos lençóis freáticos na Índia.

A crescente e mal-estruturada demanda da economia global sobre os ecossistemas está diminuindo a produtividade biológica da Terra. A produção dos sítios pesqueiros oceânicos está sendo minada pela pesca predatória, poluentes marinhos e perturbação do ciclo reprodutivo dos peixes que desovam em rios, quando alguns são represados e outros secam. A pastagem excessiva também está deixando sua marca. Inicialmente, ela reduz a produtividade dos pastos, vindo posteriormente a destruí-los _ transformando-os em deserto.

A capacidade produtiva das florestas mundiais declina à medida que encolhem em mais de 9 milhões de hectares por ano. Extração de madeira, desmatamento para agricultura ou pecuária e colheita de lenha são os responsáveis. Florestas tropicais sadias não queimam, mas florestas fragmentadas podem ser enfraquecidas a ponto de incendiarem-se facilmente pela ação de raios.4

A erosão do solo está reduzindo a produtividade intrínseca de cerca de 36% das terras agrícolas mundiais. Se isso continuar, acabarão se transformando em desertos. Na África, a não-substituição dos nutrientes removidos pelas lavouras está reduzindo a produção em vários países. Quando os ecossistemas locais se deterioram, reduz-se a capacidade de sustentação da terra, disparando um ciclo auto-alimentador de degradação ecológica e aprofundamento da pobreza humana. Com


Sinais de Estresse: A Base Biológica

metade da força de trabalho mundial dependente de terras cultivadas, águas piscosas, pastos e florestas para seus empregos e subsistência, qualquer deterioração desses ecossistemas pode significar o declínio dos seus meios de vida.5

Colapso Pesqueiro

Nos três ecossistemas que fornecem nossos alimentos _ terras cultivadas, pastos e pesqueiros _ talvez o que mais se evidencia seja a pressão excessiva sobre os pesqueiros. Após a II Guerra Mundial, o crescimento populacional acelerado e a renda em ascensão constante dispararam a demanda por frutos do mar. Ao mesmo tempo, os avanços na tecnologia pesqueira, incluindo embarcações processadoras refrigeradas, que possibilitaram às traineiras explorarem oceanos distantes, incrementaram dramaticamente a capacidade da pesca.

Conseqüentemente, o pescado oceânico deu um salto de 19 milhões de toneladas em 1950 para seu pico histórico de 93 milhões de toneladas em 1997. Esse crescimento quíntuplo _ mais do que o dobro do crescimento populacional durante o período _ aumentou o consumo mundial per capita de frutos do mar de 8 quilos em 1950 para um pico de 17 quilos em 1988. Desde então, recuou para 15 quilos, com uma queda de um oitavo.6

A pesca oceânica sempre foi a fonte principal de proteína animal para a dieta de ilhas-nações e países com extensas faixas litorâneas como a Noruega e Itália, mas só na segunda metade do Século XX foi que as frotas pesqueiras começaram a explorar sistematicamente o potencial alimentício dos oceanos. Isso, juntamente com melhores transportes internos e refrigeração, tornou os frutos do mar componentes básicos da dieta da maioria da humanidade.

No início dos anos 90, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que monitora a pesca oceânica, divulgou que todos os 17 principais sítios pesqueiros do mundo estavam sendo explorados além da capacidade sustentável e 9 estavam em declínio. Muitos países tentavam proteger seus pesqueiros contra a pesca predatória e colapso futuro. Em 1992, o Canadá, que esperou demais para restringir a pesca em seu pesqueiro de bacalhau de mais de 500 anos, ao largo do litoral de Terra Nova, foi forçado a proibir totalmente a pesca, desempregando cerca de 40.000 pescadores e processadores. Além disso, em 1993 o Canadá bloqueou faixas adicionais do mar para


Eco-EConomia

a pesca do bacalhau, com a área interditada espalhando-se para o sul, em direção ao litoral dos Estados Unidos. Esse país acompanhou o Canadá, impondo restrições para salvar seus pesqueiros de bacalhau, hadoque e linguado no litoral da Nova Inglaterra.7

A situação era igualmente sombria na costa oeste. Em abril de 1994, o Conselho de Gestão da Pesca no Pacífico proibiu a pesca do salmão no litoral do Estado de Washington, num esforço para proteger a espécie da extinção. Em Oregon e na Califónia, foram impostas cotas rígidas de salmão. A ação dos Estados Unidos e Canadá, juntamente com medidas semelhantes por outros países, foi um reconhecimento implícito de que a pesca irrestrita poderia destruir as reservas, privando o mundo de uma fonte valiosa de alimento.8

A incapacidade dos governos de cooperarem na gestão dos pesqueiros oceânicos significa que, ao invés de render o máximo pescado sustentável, indefinidamente muitos pesqueiros foram explorados no limite do colapso. Os estoques atlânticos do atum de barbatana azul, muito procurado por todos os restaurantes de sushi do Japão, sofreram uma perda extraordinária de 94%. Mesmo que se proíba sua pesca total, levarão anos até que esta antiga espécie se recupere.9

A pesca no interior também sofre com a má gestão ambiental _ desvio de rios, acidificação e poluição. Como observado no Capítulo 2, o pesqueiro do Mar de Aral, que rendia 60.000 toneladas de pescado por ano ainda recentemente em 1960, é hoje história. O crescente teor de salinidade deixou o mar biologicamente morto.10

Um relatório de 2001 revela que o Mar Azov, na Rússia, também está morrendo. Níveis crescentes de sal, resíduos petrolíferos, poluição por metais pesados e materiais radiativos, ao que tudo indica, estão envolvidos. O pescado comercial caiu 97% ao longo do último quarto de século. Muitas espécies estão extintas. Como observou um comentarista, o Mar Azov tornou-se "um corpo de água que não pode sustentar a vida que nele habita ou as pessoas em seu entorno."11

A acidificação dos lagos pela chuva ácida, principalmente da queima de carvão, ainda continua sendo um problema. Só o Canadá hoje contabiliza 14.000 lagos mortos. E a poluição deixa sua marca nos lagos de água doce, seja destruindo peixes ou tornando-os inadequados para consumo humano. Nos Estados Unidos, os peixes em cerca de 50.000 lagos, córregos e lagoas contêm níveis de mercúrio que os inviabilizam para consumo, sendo o principal responsável o mercúrio


Sinais de Estresse: A Base Biológica

das chaminés das usinas elétricas a carvão. (Vide Capítulo 6.)12

Pesca predatória e poluição não são as únicas ameaças à oferta mundial de frutos do mar. As áreas de desova e viveiros de muitas criaturas aquáticas estão desaparecendo, à medida que baixadas costeiras, manguezais e recifes de coral são destruídos. Além disso, o represamento de rios está privando muitas espécies de suas áreas de desova, outros rios estão secando, com os mesmos resultados, e outros mais estão simplesmente poluídos demais para sobreviverem.

Cerca de 90% dos peixes oceânicos dependem das baixadas costeiras, manguezais ou rios para a desova. Muito mais da metade da área original de manguezais nos países tropicais e subtropicais já foi perdida. O desaparecimento de baixadas costeiras nos países industrializados chega a ser até maior. Na Itália, onde essas áreas são viveiros para muitos peixes do Mediterrâneo, houve uma perda monumental de 95%.13

Danos a recifes de coral, que são viveiros de peixes em águas tropicais e subtropicais, também são expressivos. Entre 1992 e 2000, a parcela mundial de recifes gravemente danificados aumentou de 10 para 27%. Quando os recifes se deterioram, também se vão os peixes que deles dependem.14

Os pesqueiros oceânicos enfrentam inúmeras ameaças, mas é a pesca predatória que mais ameaça sua sobrevivência. O pescado oceânico aumentou com o desenvolvimento de novas tecnologias, desde o sonar para rastrear cardumes até redes de arrasto que, unidas, dariam várias voltas ao mundo. "Com embarcações mais possantes e localizadores de peixes, adquirimos a capacidade de acabar com os peixes, o que estamos fazendo," alerta Douglas Foy, da Conservation Law Foundation, da Nova Inglaterra.15

Em grande parte, a pesca comercial é atualmente a economia do hoje versus o amanhã. Governos buscam proteger o pescado do futuro, ao forçar pescadores a manterem suas embarcações ociosas; comunidades pesqueiras se debatem entre a necessidade da receita de hoje versus a do futuro. Ironicamente, o excesso de capacidade das frotas é causado pelos subsídios governamentais que, há muito, facilitam grandes empréstimos em condições favoráveis para investimentos em novas embarcações e equipamentos de pesca. Em 2000, entretanto, esses empréstimos já estavam se tornando insustentáveis à medida que o pescado diminuía. Cotas de pescado mantiveram muitos barcos ancorados durante períodos que antes eram de fartura.16


Eco-EConomia

Subsídios para a pesca se baseavam na crença infundada de que as antigas tendências da pesca oceânica poderiam ser projetadas para o futuro, ou seja, o crescimento do passado significaria crescimento para o futuro. O conselho constante dos biólogos marinhos da FAO alertando que, algum dia, o pescado acabaria atingindo um limite, foi simplesmente ignorado.17

Contanto que houvesse mais peixes no mar do que poderíamos pescar, a gestão da pesca oceânica era simples. Mas, com muitos pesqueiros já em colapso, e outros na iminência de colapso, o desafio da gestão na alocação do pescado entre nações concorrentes e populações carentes de proteína se torna infinitamente mais complexo. A simples sustentação do pescado existente exigirá novos níveis de colaboração entre nações.

Mesmo entre países acostumados a trabalharem juntos, como os países da União Européia (UE), o desafio da negociação de limites de pescado em níveis sustentáveis pode ser difícil. Em abril de 1997, após longas negociações, chegou-se a um acordo em Bruxelas para reduzir a capacidade de pesca das frotas da UE em 30% para espécies ameaçadas como o bacalhau, arenque e linguado no Mar do Norte, e 20% para estoques pescados excessivamente, como o bacalhau do Mar Báltico, o atum de barbatana azul e peixe-espada da Península Ibérica. A boa notícia foi que a UE finalmente chegou a um acordo para reduzir o pescado. A má notícia foi que essa redução não foi suficiente para conter o declínio dos pesqueiros da região.18

Em janeiro de 2001, a UE foi mais além, anunciando uma proibição da pesca do bacalhau, hadoque e pescada durante o período de 12 semanas de desova da primavera. Com o pescado anual do bacalhau reduzido a 50.000 toneladas em 2000 (contra 300.000 toneladas em meados dos anos 80), essa medida foi um esforço desesperado para salvar os estoques. Autoridades da UE têm plena consciência que os estoques, outrora imensos, de bacalhau em Terra Nova, no Canadá, não se recuperaram desde o colapso de 1992, apesar da proibição total à pesca desde então.19

Quando algumas áreas pesqueiras entram em colapso, há maior pressão sobre as áreas restantes. Após as restrições à pesca predatória na Europa, a frota pesqueira altamente subsidiada da UE voltou-se à costa ocidental da África, adquirindo licenças para pescar ao largo do litoral do Senegal, Mauritânia, Marrocos, Guiné-Bissau e Cabo Verde.


Sinais de Estresse: A Base Biológica

Disputam espaço com frotas do Japão, Coréia do Sul, Rússia e China. Para países pobres como a Mauritânia e Guiné-Bissau, a renda obtida com a venda de licenças para pesca pode atingir metade da receita nacional. Infelizmente para os africanos, suas áreas pesqueiras também estão em colapso. A maioria dos países não dispõe de embarcações e radar para assegurar cumprimento aos acordos de pesca nas zonas econômicas exclusivas de 200 milhas ao longo do seu litoral, estabelecidos pelo Tratado do Direito do Mar, em 1979.20

As áreas pesqueiras em todo o mundo enfrentam o mesmo destino. Na costa oeste da Índia, o pesqueiro ao largo de Goa cresceu aceleradamente quando a frota mecanizada deu um salto de dez barcos em 1964 para 2.200 em 1998. Enquanto isso, o pescado anual aumentou de 17.000 para 95.000 toneladas _ muito além da produção máxima sustentável de 71.000 toneladas. A menos que o governo indiano reduza rapidamente esse pescado para um nível sustentável, essa área também entrará em colapso, privando a população costeira da Índia de uma fonte de proteína extremamente necessária.21

Se os oceanos não conseguirem sustentar uma pesca superior a 95 milhões de toneladas e caso a população mundial continue a crescer como projetado, o pescado oceânico per capita _ que já baixou 9% desde seu pico em 1988 _ provavelmente cairá para 10 quilos em 2050. A geração que atingiu a maioridade durante a II Guerra Mundial viu o pescado per capita dobrar durante sua vida. Seus netos, as crianças de hoje, poderão testemunhar uma redução de um terço.22

O resultado é que a crescente demanda mundial por frutos do mar não pode mais ser satisfeita pelos pesqueiros oceânicos. Para que seja atendida, será necessário ampliar a piscicultura, o que intensificará ainda mais as pressões sobre os recursos em terra. Peixes colocados em lagoas ou cercados precisam ser alimentados. (Vide Capítulo 7.)

Recuo das Florestas

No início do Século XX, a área florestal mundial era estimada em 5 bilhões de hectares. Desde então, encolheu para 2,9 bilhões de hectares _ aproximadamente o dobro da área cultivada mundial. As florestas remanescentes estão distribuídas mais ou menos eqüitativamente entre florestas tropicais e subtropicais nos países em desenvolvimento, e florestas temperadas/boreais nos países industrializados.23

O desmatamento é causado pela demanda crescente por produtos


Eco-EConomia

florestais e a conversão acelerada de áreas florestais para a agricultura. Essa perda florestal está concentrada nos países em desenvolvimento. De 1990 a 1995, a perda nessas nações atingiu, em média, 13 milhões de hectares por ano, uma área aproximadamente igual ao Estado de Kansas. Em geral, isso significa que o mundo em desenvolvimento está perdendo 6,5% de suas florestas por década. O mundo industrializado, na realidade, está ganhando cerca de 3,6 milhões de hectares de área florestal a cada ano, principalmente de cultivos abandonados que revertem à floresta por si só, como na Rússia, e da disseminação de reflorestamentos comerciais.24

Infelizmente, até mesmo esses dados oficiais da FAO não refletem a gravidade da situação. Por exemplo, as florestas tropicais derrubadas ou queimadas raramente se recuperam. Simplesmente se transformam em desertos ou, na melhor das hipóteses, em capoeira, porém ainda são incluídas nos números oficiais de florestas quando não constam de outra categoria de uso do solo como área de cultivo ou construção. A Forest Frontiers Initiative, do World Resources Institute, divulgou um relatório em 1997 sobre a situação das florestas mundiais. Observaram que "oculta por trás dessas estatísticas conhecidas está uma realidade igualmente grave. Das florestas que ainda restam em pé, a grande maioria consiste de nada mais que pequenos trechos, altamente prejudicados, dos ecossistemas plenos que foram outrora." O relatório observa que apenas 40% da cobertura florestal remanescente no mundo pode ser classificada como floresta de fronteira, definida como "grandes sistemas florestais, intactos e naturais, relativamente não perturbados e suficientemente amplos para manter toda sua biodiversidade, inclusive populações viáveis das espécies variadas associadas a cada tipo."25

O consumo de cada um dos principais produtos florestais _ lenha, papel e madeira _ está aumentando. Dos 3,28 bilhões de metros cúbicos de madeira extraída mundialmente em 1999, mais da metade foi utilizada como combustível. Nos países em desenvolvimento, a proporção foi até maior, quase quatro quintos do total. Nos países industrializados, cerca de 14% da madeira extraída foi utilizada como combustível, a maior parte formada por resíduos das fábricas de papel e celulose para gerar eletricidade e proporcionar calor de processamento. Algumas fábricas de papel obtêm auto-suficiência energética utilizando casca e galhos pequenos como combustível.26

O desmatamento para atender à demanda de lenha é extenso na


Sinais de Estresse: A Base Biológica

zona do Sahel africano e no subcontinente indiano. À medida que a demanda urbana de lenha suplanta a produção sustentável das florestas vizinhas, as matas se distanciam das cidades num raio cada vez maior, um processo nitidamente visível nas fotos de satélite tiradas ao longo do tempo. À medida que esse raio se estende, crescem os custos de transporte de lenha, provocando o desenvolvimento de uma indústria de carvão, uma forma mais concentrada de energia a custos menores de transporte.27

A atividade madeireira também causa danos graves, como se observa nos países da África, Caribe e Pacífico. Em quase todos, as madeireiras são corporações estrangeiras mais interessadas em maximizar a extração de produtos florestais de uma só vez, ao invés de manejar as florestas para maximizar a produção sustentável perene. Uma vez que as florestas de um país são derrubadas totalmente, as empresas se transferem, deixando atrás de si terras devastadas.28

Outra perda florestal é causada pelo desmatamento para agricultura, geralmente através de queima, uma perda que está concentrada na Amazônia brasileira e, mais recentemente, em Bornéu e Sumatra, na Indonésia. Após perder 97% da Mata Atlântica, o Brasil hoje destrói sua Mata Amazônica. Essa gigantesca floresta, aproximadamente do tamanho da Europa, permaneceu praticamente intacta até 1970. Desde então, destruiu-se 14% de sua área. Só em 1999, foram desmatados 17.000 quilômetros quadrados.29

A perda gradativa da cobertura florestal tem conseqüências tanto econômicas quanto ambientais. Economicamente, países que perderam sua disponibilidade exportável de produtos florestais, como Nigéria e Filipinas, hoje são importadores desses produtos. Perdidos também estão os empregos e a renda que suas indústrias florestais proviam no passado.30

Os efeitos ambientais do desmatamento estão cada vez mais visíveis. Dezenas de países estão sendo prejudicados por enchentes desastrosas causadas pelo desmatamento. Em 1998, a bacia do Yangtzé, que perdeu 85% da sua cobertura florestal original, sofreu as piores enchentes de sua história. Em 2000, Moçambique ficou parcialmente inundada quando o Limpopo transbordou, ceifando milhares de vidas e destruindo lares e lavouras numa escala sem precedentes. A bacia do Limpopo, que já perdeu 99% da sua cobertura original, provavelmente enfrentará muitas outras enchentes.31


Eco-EConomia

Enquanto o desmatamento acelera o fluxo de água de volta ao oceano, também reduz o movimento atmosférico da água para o interior. As florestas mundiais são efetivamente condutos ou sistemas de transporte de água para o interior. Enéas Salati e Peter Vose, dois cientistas brasileiros colaboradores da revista Science, observaram que, à medida que o ar carregado de umidade oriundo do Atlântico se desloca para o Oeste, através da Amazônia e em direção aos Andes, leva umidade ao interior. À medida que o ar esfria e esta umidade se transforma em chuva, irriga as florestas tropicais abaixo. Numa floresta tropical sadia, cerca de um quarto da precipitação escoa para os rios, de volta ao Oceano Atlântico. Os outros três quartos evaporam e são levados mais para o interior, onde o processo se repete. É essa capacidade de reciclagem hídrica das florestas tropicais que leva água para as vastas regiões interioranas do oeste amazônico.32

Quando a floresta tropical é queimada para a pecuária, altera-se dramaticamente o ciclo das chuvas _ três quartos da precipitação escoa, retornando ao mar logo quando cai, restando pouco para ser levado ao interior. À medida que mais e mais áreas da Amazônia são desmatadas para pecuária ou agricultura, ou degradadas pelas madeireiras, diminui a capacidade de a floresta transportar água para o interior. Conseqüentemente, a parte ocidental começará a secar, transformando-se em floresta de terra firme ou até mesm em savana.33

A queima e corte da floresta tropical amazônica também poderá afetar a agricultura nas regiões ao sul. Quando as massas de ar que se movem para o interior vindo do Atlântico chegam aos Andes, desviam-se para o sul, levando a umidade com elas. É essa umidade que provoca a maior parte das chuvas nas regiões agrícolas do sudoeste do Brasil e do Paraguai e do norte da Argentina. À medida que o desmatamento da Amazônia avança, o fluxo de umidade para essas áreas de cultivo provavelmente diminuirá. Os esforços para incrementar a produção agrícola através do desmatamento na bacia leste do Amazonas poderão reduzir a produção agrícola no sudoeste brasileiro.34

Uma situação semelhante poderá estar se desenvolvendo na África, onde o desmatamento avança à medida que aumenta a demanda por lenha e as madeireiras derrubam grandes áreas de floresta virgem. Quando a área florestal encolhe, o volume de precipitação que chega ao interior da África diminui. Isso também está ocorrendo na China. Wang Hongchang, Fellow da Academia de Ciências Sociais da China,


Sinais de Estresse: A Base Biológica

cita o desmatamento nas províncias do sul e leste como a principal razão do declínio das chuvas no noroeste do país, onde uma Dust Bowl está se formando.35

Hoje, vários países mantêm proibições totais ou parciais de extração de madeira em florestas primárias, incluindo Camboja, China, Índia, Nova Zelândia, Filipinas, Sri Lanka, Tailândia e Vietnã. Além disso, cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados, ou aproximadamente 9% da área florestal global remanescente, estão sendo reservados para parques ou áreas de preservação ambiental ou para outros fins conservacionistas. Em alguns casos, essas florestas estão sob proteção cuidadosa, mas freqüentemente esses "parques de papel" só existem na teoria e na legislação inexpressiva que os criou.36

Deterioração de Pastagens

Um décimo da superfície terrestre é ocupado por terras cultivadas, mas o dobro disso é formado por pastos _ terras muito secas, muito íngremes ou muito inférteis para sustentar uma produção agrícola. Essa área _ um quinto da superfície terrestre, a maioria semi-árida _ sustenta as 3,3 bilhões de cabeças de gado bovino, caprino e ovino mundial. (Vide Tabela 3-1.) Esses rebanhos são ruminantes, animais com sistemas digestivos complexos que possibilitam converter palha em carne e leite.37

Cerca de 180 milhões de pessoas em todo o mundo vivem do pastoreio de bois, carneiros e cabras. Muitos países africanos são altamente dependentes da economia pecuária para alimento e emprego. É o mesmo caso para grandes populações do Oriente Médio, Ásia Central (incluindo a Mongólia), noroeste da China e grande parte da Índia. A Índia, que possui a maior concentração mundial de ruminantes, depende do gado bovino e dos búfalos não apenas para leite, mas também para força motriz e combustível.38

Em outras partes do mundo, os pastos são explorados em grande escala comercial. A Austrália, cujo território é dominado por pastos, tem um dos maiores rebanhos mundiais de ovinos _ 117 milhões de carneiros ou 6 para cada australiano. Economias pecuárias também predominam na Argentina, Brasil, México e Uruguai. E, nas Grandes Planícies da América do Norte, as terras inadequadas para o cultivo de trigo são destinadas à pecuária.39

Embora a atenção pública esteja freqüentemente focada no papel


Eco-EConomia

Tabela 3-1. Ruminantes Domesticados, por País (2000)

País Bovinos e Búfalos Ovinos e Caprinos

(milhões de cabeças)


Argentina

Austrália

Bangladesh

Brasil

China

Etiópia

França

Índia

México

Nigéria

Paquistão

Rússia

Reino Unido

Estados Unidos

Outros

Mundo

55

26

24

169

127

35

20

313

30

20

45

28

11

98

509

1.510

17

117

35

31

279

39

11

181

16

45

72

16

45

9

868

1.780


Fonte: FAO, FAOSTAT Statistics Database, <apps.fao.org>, atualizado em 02/05/2001

do confinamento para a produção de carne, toda a carne bovina e ovina mundial é produzida basicamente em pastos. A parcela mundial de gado bovino, ovino e caprino criado em confinamento é uma minúscula fração do gigantesco número que se alimenta de capim. Mesmo nos Estados Unidos, que possui a maior área mundial de confinamento, um novilho caracteristicamente permanece em confinamento apenas alguns meses. Caso as pastagens se deteriorem, o mesmo ocorrerá com esse segmento da economia pecuária mundial baseada na forragem.

Bois e carneiros tendem a predominar no consumo de carne quando há abundância de pastos em relação ao tamanho da população. Entre os países com maior consumo per capita de carne estão a Argentina, com 69 quilos por ano; Estados Unidos, 45 quilos; Brasil, 39


Sinais de Estresse: A Base Biológica

quilos e Austrália, 36 quilos. Em alguns países com extensas áreas de pastagens, a carne ovina predomina na dieta, como na Nova Zelândia, com 25 quilos, Austrália, 14 quilos e Casaquistão, 7 quilos..40

Esses mesmos ruminantes, singularmente eficientes na conversão da palha em carne e leite para consumo humano, são também fonte de couro e lã. As indústrias mundiais de couro e lã, sustento de milhões, dependem dos pastos para sua matéria-prima.

Mundialmente, quase metade dos pastos está entre leve e moderadamente degradado e 5% gravemente degradados. A pressão excessiva sobre os pastos, como no caso dos pesqueiros oceânicos, aflige igualmente países industrializados e em desenvolvimento. Um levantamento em 2000 das áreas públicas de pastagem nos Estados Unidos, administradas pelo Departamento de Manejo do Solo, por exemplo, constatou que apenas 36% das pradarias nativas possuíam forragem em boas ou excelentes condições, com a maior parte da área restante com qualidade entre regular ou inferior.41

Embora não haja dados suficientes para a degradação dos pastos, o problema é altamente visível por toda a África, onde a população do gado acompanha o crescimento dos números humanos. Em 1950, 238 milhões de africanos dependiam de 273 milhões de cabeças de gado. Em 2000, havia 794 milhões de pessoas e 680 milhões de cabeças.42

Nesse continente, onde há escassez de grãos, 230 milhões de cabeças de bovinos, 241 milhões de ovinos e 209 milhões de caprinos se sustentam pastando ou comendo brotos. A quantidade do gado, pedra angular da economia em todos os lugares, excetuando-se o cinturão da mosca tsé-tsé (aproximadamente a Oeste da Bacia Hidrográfico do Congo), freqüentemente suplanta a capacidade dos pastos em mais da metade. Um estudo que traçou as pressões crescentes sobre as pradarias em nove países do sul da África constatou que a capacidade de sustentar o gado está caindo.43

O Irã _ um dos países mais populosos do Oriente Médio, com 70 milhões de pessoas _ ilustra as pressões sobre a região. Com mais de 8 milhões de cabeças de gado bovino e 81 milhões de ovinos e caprinos _ fonte de lã para sua afamada indústria de tapetes _, o Irã se defronta com a deterioração de seus pastos devido ao volume excessivo do gado. Num país onde os ovinos e caprinos superam sua população, o consumo dessa carne tem posição de destaque na alimentação. Entretanto, com os pastos hoje estressados ao limite e além, o rebanho atual


Eco-EConomia

talvez não possa ser sustentado.44

A China enfrenta desafios igualmente difíceis. No noroeste, o crescimento dos rebanhos desde as reformas econômicas de 1978 está destruindo áreas imensas de pastos. Desde então, os rebanhos têm aumentado dramaticamente. No Condado de Gonge, por exemplo, no leste da Província de Qinghai, a quantidade de ovelhas que os pastos locais podem suportar é de cerca de 3,7 milhões de cabeças; mas, no final de 1998, o rebanho da região havia atingido 5,5 milhões _ muito além da sua capacidade. O resultado é a deterioração acelerada dos pastos, desertificação e, em alguns locais, a criação de dunas de areia. Erik Eckholm, escrevendo no New York Times, relata que "as areias que se acumularam são parte de um novo deserto em formação aqui, no leste do Planalto Qinghai-Tibete, uma região legendária, outrora famosa pelo capim que chegava a atingir a barriga dos cavalos e que, durante séculos, era o lar de pastores étnicos tibetanos."45

As necessidades de forragem para os rebanhos em quase todos os países em desenvolvimento hoje excedem a produção sustentável dos pastos e de outras fontes. Na Índia, a demanda pela forragem em 2000 foi estimada em 700 milhões de toneladas, enquanto a oferta sustentável totalizou apenas 540 milhões de toneladas. O Conselho Nacional de Uso do Solo e Desenvolvimento de Terras Degradadas divulga que nos estados mais gravemente degradados, como Rajasthan e Karnataka, o suprimento de forragem só satisfaz 50-80% das necessidades, deixando grande número de animais macilentos e improdutivos.46

Na segunda metade do século XX, a produção mundial de carne bovina e ovina aumentou mais rapidamente que a população, elevando-se de 9 quilos por pessoa em 1950 para 13 quilos em 1972. (Vide Figura 3-1.) Desde então, todavia, o crescimento da produção mundial de ambas as carnes foi superado pelo crescimento populacional, reduzindo a oferta per capita para 11 quilos, ou uma queda de um quinto.47

A degradação do solo causada pelo excesso de pastagem está causando um dano econômico severo, sob a forma de perda de produtividade pecuária. Nos primeiros estágios do excesso de pastagem, os custos aparecem como produtividade menor do solo. Mas, caso o processo continue, destrói a vegetação, levando à erosão do solo e posterior criação de deserto. Uma avaliação das Nações Unidas das regiões secas do planeta revelou que a perda de produção pecuária causado pela degradação dos pastos ultrapassou US$ 23 bilhões em 1990. (Vide Tabela 3-2.)48


Sinais de Estresse: A Base Biológica

Figura 3-1. Produção Mundial Per Capita de Carne Bovina e Ovina,

1950-2000

Na África, a perda anual de produtividade dos pastos é estimada em US$ 7 bilhões, mais do que o produto interno bruto da Etiópia. Na Ásia, as perdas do rebanho causadas pela degradação dos pastos atingem mais de US$ 8 bilhões. Em conjunto, África e Ásia representam dois terços dessa perda global.49

Com a pastagem já chegando ao limite ou acima de sua capacidade, não são boas as perspectivas de ganhos substanciais futuros na produção de carne bovina ou ovina pelos pastos. E, considerando a conversão ineficiente de grãos em carne, maiores ganhos de produção só poderão ser possíveis através da alimentação do gado com mais resíduos da lavoura. (Vide Capítulo 7.)

Erosão dos Solos

Após a criação da Terra, o solo formou-se lentamente, ao longo do tempo, pela decomposição das rochas. Foi esse solo que sustentou o início da vida vegetal na terra. À medida que a vida vegetal se disseminou, as plantas protegiam o solo da erosão eólica e hídrica, permitindo que acumulasse e sustentasse ainda mais vida vegetal. Esse relacionamento simbiôntico facilitou a acumulação da camada superior do solo até que pudesse sustentar uma rica diversidade não apenas das plantas, mas também da vida animal dependente de vegetais.


Eco-EConomia

Tabela 3-2. Perda de Produção Pecuária Causada por

Degradação do Solo em Regiões de Terra Seca, 1990

Continente Perda de Produção (bilhões de dólares)


África

América do Norte

América do Sul

Ásia

Austrália

Europa

Total1

7,0

2,9

2,1

8,3

2,5

0,6

23,2


1 Diferença no total devido a arredondamentos.

Fonte: Vide nota final 48.

A tênue manta da camada superior, medida em centímetros, sobre a maior parte da terra é a base da civilização. Quando a civilização antiga perdeu sua camada superior devido à falta de manejo e erosão, desmoronou à medida que seu abastecimento encolhia. Com cerca de 36% da área agrícola mundial perdendo hoje a camada superior num ritmo que solapa sua produtividade, nossa segurança alimentar também está ameaçada, caso essa tendência continue.50

À medida que as pressões pela expansão da produção de alimentos aumentaram, os agricultores foram afastados para áreas marginais, cultivando solos secos ou inclinados demais para sustentar a agricultura. Num determinado ponto, provavelmente no último século, o acúmulo prolongado da camada superior do solo reverteu quando as perdas por erosão suplantaram a formação de um novo solo, levando à exaustão gradativa desse capital natural fundamental.

Os Estados Unidos, o maior celeiro mundial, sofreram dois períodos de extenso cultivo excessivo, cada um deles causando perdas graves da camada superior do solo. O primeiro ocorreu no início dos anos 30, quando uma seca aguda causou uma extensa erosão eólica ao sul das Grandes Planícies. A devastação ambiental resultante não apenas deu à área o nome Dust Bowl, como também provocou uma das maiores migrações internas da história dos Estados Unidos, quando as pessoas, em bandos, deixaram a região e se dirigiram para a Califórnia.51


Sinais de Estresse: A Base Biológica

Após a adoção de novas práticas agrícolas, em resposta à Dust Bowl, como a plantação de quebra-ventos e cultivo em curva de nível, com alqueive em anos alternados, o solo foi estabilizado. Porém, à medida que a demanda por alimentos começou a aumentar rapidamente, após meados do século, e quando os preços dos grãos atingiram níveis recordes nos anos 70, os agricultores recomeçaram o cultivo "de cerca a cerca" _ plantando todo o espaço possível. Até 1982, os Estados Unidos perderam anualmente cerca de 3,08 bilhões de toneladas de camada superior do solo em suas terras agrícolas.52

Em contraste à Dust Bowl, quando o problema nas Grandes Planícies era a erosão eólica, agora é a erosão hídrica que mais aflige o Cinturão do Milho. Em estados como Iowa, com suas terras agrícolas ondulantes, os agricultores perderam quase 20 toneladas da camada superior por hectare anualmente devido à erosão hídrica. Dezenas de estudos nos Estados Unidos, analisando o efeito da erosão na produtividade do solo, constataram que a perda de uma polegada de camada superior do solo reduz a produção de milho e trigo em 6% em média. Com a natureza necessitando de séculos para formar uma polegada de camada superior, as perdas atuais se tornam irreversíveis quando medidas em escala humana de tempo.53

Uma das conseqüências do cultivo excessivo é fato de os países se virem obrigados a recuar e reduzir a área cultivada. Alguns conseguiram, através de programas cuidadosamente planejados, converter terras agrícolas altamente erodíveis em pradarias ou florestas. Por exemplo, o Conservation Reserve Program dos Estados Unidos (CRP), lançado em 1985, destinou-se a simultaneamente controlar o excesso de produção e conservar o solo, "aposentando" as terras mais sujeitas à erosão. Iniciado e apoiado por grupos ambientalistas, o programa incentivou os agricultores a deixar de cultivar as áreas altamente erodíveis, pagando-os sob contratos de 10 anos para plantarem capim ou árvores.54

Dentro de cinco anos, os agricultores norte-americanos haviam convertido quase 15 milhões de hectares de terras agrícolas, cerca de 10% da área nacional, em.prado. Isso reduziu a erosão excessiva do solo, em nível nacional, em cerca de 40%, ajudando a incrementar a segurança alimentícia para todo o mundo. Os benefícios não-mercadológicos da redução da erosão do solo e o aprovisionamento de habitat pelo CRP, entre 1985 e 2000, estão estimados em mais de US$ 1,4 bilhões.55


Eco-EConomia

A União Soviética sobre-expandiu seu cultivo com o Projeto das Terras Virgens, entre 1954 e 1960. Num esforço para incrementar a produção agrícola e se tornar um superpoder agrícola, os soviéticos araram imensas áreas de pradarias na Ásia Central, centrando-se no Casaquistão. Durante esse período, o aumento da área de trigo no Casaquistão equivaleu a toda a área do Canadá e Austrália conjuntamente.56

Infelizmente, nem todo esse território pôde suportar a agricultura. A maior parte dos trigais do Casaquistão, um país semi-árido, erodiu a ponto de não mais poder sustentar o cultivo. Após a área de grãos ter atingido 25 milhões de hectares em 1960, manteve-se até 1984, quando começou a encolher, à medida que a produtividade caía e a terra menos produtiva era abandonada. Em 2001, já havia se reduzido a 12 milhões de hectares. (Vide Figura 3-2.) Embora essa perda possa ter surpreendido os líderes políticos de Moscou, que planejaram a expansão nos anos 50, não foi surpresa para os cientistas do Instituto de Manejo do Solo em Alma Alta, que assinalaram em 1994 que o cultivo de grãos poderia ser sustentado em apenas metade da área originalmente preparada. Mesmo essas estimativas podem vir a ser excessivamente otimistas.57

Resta ver se a perda da camada superior do solo, produções declinantes e abandono das terras agrícolas do Casaquistão podem ser contidos. Mesmo a área de grãos ainda cultivada produz menos de uma tonelada de trigo por hectare _ uma fração das 7 t/ha da França, líder na produção de trigo da Europa Ocidental.58

Se a erosão do solo avançar demais, pode transformar a terra em deserto. Num estágio intermediário de degradação, poderá reverter à prado, como no Casaquistão, retendo algum valor produtivo. Caso a intervenção ocorra logo no início do ciclo de declínio, a terra pode ser salva através de um manejo responsável, como ocorreu durante o período da Dust Bowl. Ou então a terra pode ser sistematicamente "aposentada" e convertida a prados ou matas. Todavia, em muitos países em desenvolvimento, onde as populações dobraram ou triplicaram no último meio século, essa nem sempre é uma opção.

Na maioria dos países em desenvolvimento, a demanda crescente por alimentos empurrou a agricultura para terras marginais. Na China, por exemplo, a duplicação da população desde 1950, combinada com aumentos recordes da renda, desde 1980, quase triplicou a demanda por grãos.59


Sinais de Estresse: A Base Biológica

Figura 3.2 - Total da área de colheita de grãos

no Casaquistão, 1960-2001

A perda das terras agrícolas da China, cedendo lugar à construção de fábricas, estradas e expansão urbana, particularmente nas prósperas províncias costeiras, causou preocupações crescentes em Beijing quanto à redução das áreas cultiváveis do país. O resultado foi uma tentativa para compensar essas perdas através do cultivo de mais terras na região semi-árida do noroeste. Esse novo cultivo, porém, muito menos produtivo, era muito mais vulnerável à erosão eólica.60

Como descrito no início deste capítulo, nos últimos anos as tempestades de poeira na China se tornaram mais freqüentes e mais intensas, cobrindo as cidades do nordeste com camadas de pó. Em maio de 2000, o jornal China Daily divulgava: "Tempestades desastrosas de areia que atingiram várias grandes cidades recentemente no norte da China alarmaram a nação quanto às conseqüências devastadoras de uma estratégia de desenvolvimento que desconsiderou o meio ambiente." A desertificação ora em curso no noroeste da China despertou o temor público quando "vendavais carregados de poeira começaram a encobrir vilarejos, varrer as cidades e sufocar os habitantes."61

Essas novas informações, juntamente com estudos científicos, indicam que uma área seca e poeirenta (uma dust bowl) está se formando no norte da China. A tempestade de areia de abril de 2001, mencionada anteriormente, foi uma das maiores jamais registradas. Cientistas


Eco-EConomia

americanos no Colorado mediram o pó dessa tempestade a 10.700 metros acima de Boulder. A China está perdendo milhões de toneladas da camada superior do solo, um prejuízo insustentável.62

Na África, o crescimento populacional e a degradação das terras agrícolas também seguem num curso de colisão. Rattan Lal, um agrônomo de fama internacional da Faculdade de Recursos Naturais da Universidade do Estado de Ohio, fez a primeira estimativa da perda de produtividade devido à erosão do solo do continente. Lal concluiu que a erosão do solo juntamente com outras formas de degradação da terra reduziram a colheita de grãos africana em 8 milhões de toneladas, ou cerca de 8%. Além disso, ele prevê que a perda atinja 16 milhões de toneladas até 2020, caso a erosão persista.63

Entre os países que sofrem pesadas e não costumeiras perdas de solo estão: Nigéria, Ruanda e Zimbábue. Nigéria, o país mais populoso da África, está sofrendo uma erosão aguda, sob a forma de boçoroca. Lal relata fendas de 5-10 metros de profundidade e 10-100 metros de largura. Em janeiro de 2001, Alhaji Sanni Daura, Ministro do Meio Ambiente da Nigéria, anunciou que cerca de 500 quilômetros quadrados de terras agrícolas estavam se transformando em deserto. Daura teme que, caso esse processo de desertificação não seja revertido, a Nigéria, em breve, enfrente uma escassez aguda de alimentos.64

Na borda norte do Saara, a Argélia também enfrenta a desertificação de suas terras agrícolas. Em dezembro de 2000, o Ministério da Agricultura anunciou um plano quadrienal para conter o avanço da desertificação que se teme, em breve, que ameaçará áreas férteis no norte do país. O plano prevê a conversão de 20% da região de grãos, no extremo sul, em cultura arbórea, incluindo pomares de frutas, oliveiras e vinhedos. O governo espera que essa barreira de vegetação permanente contenha a marcha do Saara em direção ao norte. A Argélia, um país já dependente de importações para 40% de seus grãos, tenta desesperadamente converter um quinto de suas terras produtoras de grãos em culturas arbóreas para proteger os quatro quintos remanescentes.65

No leste da África, os governos enfrentam situações semelhantes. Países como Etiópia, Quênia e Somália sofrem degradação do solo e abandono de lavouras. A população de 6 milhões do Quênia, em 1950, aumentou para 31 milhões, exercendo uma pressão insustentável nas florestas locais, prados e terras agrícolas. Durante a grave seca de 2000,


Sinais de Estresse: A Base Biológica

o povo Masai, num ato de desespero, levou seu gado a Nairobi para se alimentar do capim dos parques e jardins bem irrigados da capital.66

O fracasso dos governos africanos em lidar eficientemente com a erosão do solo está exaurindo o capital natural mais essencial da África _ seu solo. A próxima geração de agricultores africanos deverá se esforçar para alimentar não as 800 milhões de pessoas de hoje, e sim as 2 bilhões de pessoas projetadas para o ano 2025 _ e com muito menos camada superior do solo.67

No México, muitos dos 900.000 migrantes que abandonam as comunidades rurais em regiões áridas e semi-áridas, anualmente, são forçadas a isso pela desertificação. Alguns desses refugiados ambientais se dirigem às cidades mexicanas, outros cruzam a fronteira ao norte, para os Estados Unidos. Analistas americanos calculam que o México é forçado a abandonar anualmente 1.036 quilômetros quadrados de terras agrícolas devido à desertificação.68

O Banco Mundial, citando estudos em Costa Rica, Malawi, Mali e México, conclui que as perdas graduais da produtividade agrícola devido à erosão do solo hoje se traduzem em perdas anuais de produção agrícola equivalentes a 0,5 _ 1,5% do produto interno bruto desses países. A extensão da erosão do solo na produtividade global pode ser constatada pelos povoados abandonados da Etiópia, onde não restou solo suficiente para sustentar nem mesmo a agricultura de subsistência. E na antiga União Soviética, a degradação do solo, devido principalmente à erosão, ajudou a transformar em 1977 cerca de 20% das terras cultivadas com grãos em cultivos conservadores do solo como forragem, alqueives em anos alternados ou, onde não houve esforço de salvação do solo, floresta ou terrenos baldios até 1993.69

Infelizmente, muitos países não tomaram a iniciativa de reduzir a erosão do solo e estão pagando caro. Por exemplo, a produtividade perdida das terras agrícolas africanas alimentadas pela chuva, praticamente toda devida à erosão do solo, reduziu a colheita anual em cerca de US$ 1,9 bilhões.70

O desafio é conter a perda mundial excessiva da camada superior do solo em todas as terras, reduzindo-a abaixo ou até o nível da nova formação. O mundo não suportará a perda desse capital natural. Se não preservarmos a base da civilização, não poderemos preservar a própria civilização.


Eco-EConomia

Desaparecimento das Espécies

Registros arqueológicos revelam cinco grandes extinções desde o início da vida, cada uma representando um revés evolucionário, um empobrecimento indiscriminado da vida sobre o planeta. A última dessas extinções em massa ocorreu cerca de 65 milhões de anos atrás, provavelmente quando um asteróide colidiu com aTerra, expelindo gigantesca quantidade de poeira e escombros na atmosfera. O resfriamento súbito resultante eliminou os dinossauros e pelo menos um quinto de todas as outras formas de vida existentes.71

Estamos agora no estágio inicial da sexta grande extinção. Contrariamente às anteriores, que foram causadas por fenômenos naturais, essa é de origem humana. Pela primeira vez na longa história da Terra, uma espécie chegou a um ponto onde pode erradicar grande parte da vida.

À medida que várias formas de vida desaparecem, o ecossistema da Terra é alterado, diminuindo os serviços prestados pela natureza, como polinização, dispersão de sementes, controle de insetos e reciclagem de nutrientes. Essa perda de espécies está enfraquecendo a teia da vida e, caso continue, poderá romper seu tecido, levando a mudanças irreversíveis e potencialmente imprevisíveis no ecossistema da Terra.

Todos os tipos de espécies estão ameaçadas de destruição de habitat, principalmente devido à perda de florestas úmidas tropicais. Ao queimarmos a floresta amazônica, estamos queimando um dos grandes repositórios genéticos, na realidade uma das maiores bibliotecas de informação genética. Nossos descendentes poderão um dia considerar a queima indiscriminada desse acervo de informação genética como consideramos a queima da biblioteca de Alexandria em 48 a.C.

A alteração de habitats causada por temperaturas em elevação, poluição química ou introdução de espécies exóticas também pode dizimar tanto espécies vegetais quanto animais. À medida que as populações aumentam, diminui o número de espécies com as quais compartilhamos o planeta. Não podemos separar nosso destino daquele de toda a vida na Terra. Se a rica diversidade da vida que herdamos for empobrecida continuadamente, nosso destino acabará sendo o mesmo. 72

A parcela de aves, mamíferos e peixes vulneráveis ou em risco imediato de extinção é hoje medida em dois dígitos: 12% das quase 10.000 espécies de aves; 24% das 4.763 espécies de mamíferos; e cerca de 30% de todas as 25.000 espécies de peixes.73

Quando a World Conservation Union _ IUCN, divulgou seu mais


Sinais de Estresse: A Base Biológica

novo Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas, em 2000, mostrou um aumento do critério "criticamente em perigo" de todas as categorias. Por exemplo, o número de primatas criticamente em perigo aumentou de 13, em 1996, para 19, em 2000. O número de espécies de tartarugas de água doce nesta categoria, muitas das quais sob forte demanda na Ásia tanto como alimento quanto para usos medicinais, aumentou de 10 para 24. Para as aves como um todo, o número na categoria de criticamente em perigo subiu de 168, em 1996, para 182, em 2000. Como muitas outras tendências de declínio ambiental, essa também está acelerando.74

Entre os mamíferos, as 600 espécies conhecidas de primatas, fora humanos, estão mais ameaçadas. A IUCN informa que quase metade destas espécies está sob ameaça de extinção. Cerca de 79 das espécies mundiais de primatas vivem no Brasil, onde a destruição de habitats representa uma ameaça especial. A caça também põe em perigo muitas espécies de primatas. É uma ameaça principalmente na África central e ocidental, onde o colapso da alimentação está criando um mercado ativo para a carne de animais selvagens.75

Os bonobos da África Ocidental, uma versão menor dos chimpanzés da África oriental, podem ser nossos parentes mais próximos, tanto geneticamente como em termos de comportamento social. Mas isso não os salvam do comércio da carne de animais selvagens ou da destruição de seu habitat por madeireiras. Concentrada nas densas florestas da República Democrática do Congo, sua população caiu de aproximadamente 100.000 em 1980 para menos de 10.000 em 1990. Hoje, restam apenas 3.000. Em menos de uma geração, 97% dos bonobos desapareceram.76

Devido à sua visibilidade, as aves são um indicador útil da diversidade da vida. Das 9.946 espécies conhecidas, cerca de 70% delas sofre queda de seus números. Dessas, aproximadamente 1.183 espécies estão em perigo iminente de extinção. Perda de habitat e degradação afetam 85% de todas as espécies de aves ameaçadas de extinção. Por exemplo, 61 espécies de aves se tornaram extintas localmente após a extensa perda de florestas tropicais baixas em Cingapura. Algumas espécies, outrora abundantes, já podem ter chegado ao ponto crítico. A grande abetarda, outrora comum no Paquistão e países vizinhos, está sendo caçada a ponto de extinção. Dez das 17 espécies mundiais de pingüins estão ameaçadas ou em perigo de extinção, vítimas potenciais do aquecimento global.77


Eco-EConomia

A ameaça aos peixes pode ser a maior de todas, com quase um terço de todas as espécies _ tanto de água doce quanto salgada _ hoje próximo à possível extinção. Mundialmente, as causas principais dessa perda são a degradação de habitat, sob a forma de poluição, e a extração excessiva de água dos rios e outros ecossistemas de água doce. Cerca de 37% das espécies de peixe que habitam lagos e córregos da América do Norte estão extintos ou em perigo. Dez espécies de peixe de água doce da América do Norte desapareceram na última década. Em regiões semi-áridas do México, 68% das espécies nativas e endêmicas deixaram de existir. A situação pode ser até pior na Europa, onde cerca de 80 espécies de peixes de água doce, de um total de 193, estão ameaçadas, em perigo ou vulneráveis. Dois terços das 94 espécies de peixe da África do Sul necessitam de proteção especial para evitar a extinção.78

Espécies ameaçadas incluem tanto as pouco conhecidas, quanto as famosas e de alto valor. A captura do esturjão do Mar Cáspio, por exemplo, fonte do mais apreciado caviar do mundo, caiu de 22.000 toneladas anuais, no final dos anos 70, para 1.100 toneladas no final da década de 90. A sobrepesca, grande parte ilegal, é a causa.79

Outro indicador da deterioração ambiental da Terra é o declínio de vários tipos de anfíbios _ rãs, sapos e salamandras. Indícios generalizados do desaparecimento de populações de anfíbios surgiram inicialmente no I Congresso Mundial de Herpetologia, em Canterbury, Inglaterra, em 1989. Foi nessa conferência que os cientistas perceberam, pela primeira vez, que o desaparecimento aparentemente isolado de populações de anfíbios era, na realidade, um fenômeno mundial. Entre os fatores aparentemente responsáveis estão o desmatamento, perda de terras alagadas, introdução de espécies estranhas, mudanças climáticas, aumento da radiação ultravioleta, chuva ácida e poluição, tanto agrícola quanto industrial. Vivendo em ambientes aquáticos e terrestres, os anfíbios são afetados pelas mudanças em ambos, tornando-se um barômetro altamente sensível das transformações das condições físicas da Terra.80

A tartaruga de couro, uma das espécies animais mais antigas e que pode atingir um peso de 360 quilos, está desaparecendo rapidamente. Seus números caíram de 115.000, em 1982, para 34.500, em 1996. Na colônia de desova em Playa Grande, no litoral ocidental de Costa Rica, o número de fêmeas caiu de 1.367, em 1989, para 117, em 1999. James Spotila e


Sinais de Estresse: A Base Biológica

colegas, escrevendo em Nature, alerta que "para salvar essas tartarugas terão que ser adotadas medidas urgentes a fim de minimizar a mortalidade causada pela pesca e maximizar a produção de ninhadas."81

Uma das ameaças mais recentes às espécies, geralmente subestimada, é a introdução de espécies estranhas, que podem alterar os habitats e comunidades locais, levando as espécies nativas à extinção. Por exemplo, espécies não-nativas são a causa principal da presença de 30% das espécies de aves ameaçadas no Livro Vermelho da IUCN. Para os vegetais, as espécies estranhas estão envolvidas em 15% de todas os registros. Uma conseqüência da globalização, com suas viagens e comércio em expansão, é que mais e mais espécies estão sendo acidental ou intencionalmente levadas para novas áreas onde não há predadores naturais.82

Os esforços para salvação da vida silvestre tradicionalmente centraram-se na criação de parques ou reservas. Infelizmente, esta abordagem pode hoje ser de pouco valor devido à natureza das principais ameaças à diversidade biológica. Se não pudermos estabilizar a população e o clima, não há um ecossistema na Terra que possamos salvar. A fim de otimizar o uso dos recursos, isto justificaria realocar parte dos fundos relativamente abundantes destinados à formação de parques, para os esforços de estabilização da população e do clima.

A taxa atual de extinção das espécies é no mínimo 1.000 vezes maior que a taxa natural, entretanto ninguém sabe quantas espécies vegetais e animais existem hoje, muito menos quantas existiam meio-século atrás, quando a explosão da atividade econômica humana teve início. As estimativas atuais vão de 6 a 20 milhões de espécies, com as mais constantes entre 13 e 14 milhões. Podemos medir perdas quando dispomos de um inventário completo das espécies, como no caso das aves, porém no caso de insetos, que somam milhões, apenas uma fração das espécies foi identificada, descrita e catalogada.83

Sinergias e Surpresas

Uma preocupação dos cientistas ambientais é que algumas tendências da degradação ambiental se reforcem mutuamente, acelerando o processo. Chris Bright, do Worldwatch Institute, analisou várias dessas relações sinérgicas entre as tendências ambientais, tanto locais quanto globais. Uma dessas preocupações refere-se ao degelo. Quando o solo está coberto por gelo e neve, grande parte da luz solar que atinge a


Eco-EConomia

superfície da Terra é simplesmente rebatida de volta ao espaço pela alta refletividade da superfície. Assim que a neve e gelo derretem, o solo ou água abaixo absorve a maior parte da energia da luz solar, elevando a temperatura. A temperatura mais alta provoca mais degelo e o processo começa a se alimentar de si mesmo no que os cientistas chamam de ciclo de retorno positivo.84

Isso é particularmente preocupante no Mar Ártico, onde o gelo está derretendo, reduzindo a área refletora. (Vide Capítulo 2.) A relação sinérgica entre as temperaturas em elevação e a redução da refletividade pode já ter atingido o ponto crítico no Ártico, sugerindo um futuro quando o gelo marinho poderá desaparecer por completo durante os meses do verão. O aumento da temperatura na região polar também pode ajudar a explicar porque a manta de gelo da Groelândia está começando a derreter.85

Outro conjunto de sinergias está ameaçando as florestas mundiais com o fogo. Intactas, florestas tropicais não queimam, mas florestas enfraquecidas pela atividade madeireira ou queimadas agrícolas se tornam vulneráveis ao fogo. Quanto mais queimam, mais vulneráveis ficam. O processo, que se alimenta de si mesmo, reforça a tendência do aquecimento global. À medida que as temperaturas mais altas, causadas pela mudança climática, levam ao ressecamento das florestas e mais queimadas, aumenta a emissão de carbono na atmosfera. Os níveis crescentes de dióxido de carbono atmosférico aceleram o processo do aquecimento global. As tendências das temperaturas em elevação e das queimadas das florestas começam a reforçar umas às outras.86

Uma conseqüência das muitas mudanças interativas é que pode provocar ocorrências que surpreendem até a comunidade científica. Um desses eventos ocorreu em agosto de 2000, como descrito no Capítulo 2, quando o navio quebra-gelo de cruzeiro descobriu mar aberto no Pólo Norte. E mais outra surpresa recente foi a mortandade de recifes de coral. Novamente, as razões são complexas, porém um aumento da temperatura da superfície do mar pode ter sido o motivo. O que é surpreendente é que um aumento de temperatura na superfície do mar, de menos de 1 grau centígrado, possa causar mortes de corais. Se os corais continuarem a morrer, os ecossistemas oceânicos serão alterados, afetando diretamente os peixes que utilizam os bancos de coral como local de desova.87


Sinais de Estresse: A Base Biológica

Essas são apenas algumas das surpresas e sinergias que constatamos nos últimos anos. Ninguém sabe quantas o novo século trará. E infelizmente tendências sinérgicas como as aqui descritas são freqüentemente irreversíveis. Como observa Chris Bright, "A natureza não tem botão de reiniciar."88