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Este programa foi gravado teve a
mediação de Paulo Markun e ancada de entrevistadores formada por: João
Paulo Capobianco, biólogo, mbientalista e coordenador do Instituto
Socioambiental; jornalista Marcelo Leite; Fernando Rios, jornalista,
publicitário e consultor de mpresas na área de comunicação e meio
ambiente; o físico Bautista Vidal; Lia de Souza, coordenadora de pauta do
Repórter Eco da TV Cultura; jornalista Regina Scharf; Walter Belik,
coordenador do úcleo de Economia Agrícola da Unicamp.
Ficha Técnica
- Realização: TV Cultura - 2000; Produção: Daisy Rocha; Chefe do
Jornalismo: Solange Serpa; Diretor de Jornalismo: Marco Antônio Coelho
Filho - Comunicação: Paulo Favaro - email: ass.imp@tvcultura.com.br
Entrevista
Lester Brown é formado em ciências
agrícolas com mestrado em economia agrícola e administração pública. Já
atuou como analista assessor de órgãos do governo americano na área de
agricultura até fundar o Worldwatch em 1974. É autor de mais de duas
dezenas de livros, além de revistas e publicações anuais como o Estado do
Mundo, editado em várias línguas e que se tornou uma espécie de bíblia do
movimento ambiental internacional.
O
Futuro do Meio Ambiente Por Lester Brown
A questão não é
lucrar menos, mas como construir uma economia em que o progresso econômico
possa continuar. Se olharmos para o mundo gora, como fazemos ao editar o
relatório "Estado do Mundo" – o que fazemos ‚ um check-up anual da Terra,
o mesmo check-up que você faz quando vai ao médico. O que vemos nos 17
anos em que editamos o relatório ‚ que, a cada ano, a saúde do paciente
deteriora. Vemos os sinais da deterioração, florestas desaparecendo, a
pesca está acabando, espécies desaparecendo, o nível do mar subindo,
crescimento populacional contínuo, erosão do solo, a vegetação morrendo. E
a lista continua. E sabemos que se essa tendência continuar, os sistemas
de suporte econômico irão... Se a deterioração continuar, a economia
também vai piorar. Hoje, estudamos sítios arqueológicos de antigas
civilizações que seguiram uma rota econômica ambientalmente insustentável.
No Oriente Médio, a antiga civilização da Mesopotâmia, a mais avançada
‚ - eles inventaram a
escrita, tinham a linguagem escrita, deviam tratar aquilo como tratamos a
Internet, as primeiras cidades bem projetadas - era uma civilização
avançada, baseada na irrigação. Mas eles cometeram um erro no sistema de
irrigação, eles não o projetaram para evitar a elevação dos lençóis
freáticos. Isso resultou na inundação e no salgamento das terras, e o
suprimento de alimentos começou a cair. Hoje, a região onde esta
civilização prosperou é um deserto. Podemos pensar em outras civilizações:
os maias, na América Central, onde agora fica a planície da Guatemala.
Havia mais gente lá no ano 900 do que há atualmente. Uma civilização
florescente que se acabou, aparentemente devido ao desflorestamento e
erosão do solo. Há outros exemplos. A história ‚ é bem clara. Se
começarmos a destruir os sistemas de suporte ambiental, quer sejam eles
sistemas de irrigação, florestas ou solo, teremos problemas. Outro exemplo
dramático‚ o norte da África. O norte da África já foi o celeiro de
Roma. Os romanos comiam o trigo produzido lá. Foi uma grande região
fornecedora de alimentos. E devia ter um solo altamente fértil,
considerando a tecnologia disponível na época. Hoje é um grande deserto.
Não é mais um celeiro para o mundo. Esta é uma das responsabilidades do
governo. Historicamente, quando a economia global era muito pequena,
comparada com o tamanho da Terra, o crescimento era bom. Não havia
problemas. Mas quando chegamos perto dos limites, das florestas, da
pesca, dos solos, recursos hídricos, então temos de replanejar o sistema.
O governo deve desempenhar um papel importante. Nós achamos que o
instrumento político mais importante que os governos têm para reestruturar
na economia - por exemplo, para reduzir as emissões de carbono - é
reestruturar o sistema tributário. Hoje, o governo tributa fortemente a
renda. A renda das pessoas e das empresas. Mas não se deve taxar tudo
indiscriminadamente. As pessoas devem trabalhar, elas devem economizar, as
empresas devem ganhar dinheiro. O que não queremos são atividades
ambientalmente destrutivas. Emissão de gás carbônico, que afeta o clima da
Terra, o descarte de lixo tóxico, geração de lixo, destruição de
florestas, destruição de espécies animais e vegetais, da diversidade
biológica do planeta. Precisamos reestruturar o sistema tributário.
Vamos taxar atividades ambientalmente destrutivas, desencorajando-as,e
encorajar atividades ambientalmente construtivas. Você esta certo;
empresas individualmente, por si mesmas, não conseguem criar uma resposta
eficaz. O governo tem de estar envolvido. Mas as empresas e os indivíduos,
como eu e você, podem ajudar o governo a realizar essas mudanças. A
questão não é‚ o quanto consumimos, mas como produzimos o que consumimos.
Posso dar vários exemplos. Este é um exemplo de fora da comunidade
ambiental. Nos EUA, em Atlanta, Geórgia, há um grande fabricante de
carpetes. Ele produz carpetes para uso comercial, não residencial, para
escritórios e sedes de corporações. O dono dessa empresa de carpetes - que
tem fábricas em 9 países e vende em mais de 100 passes‚ uma enorme empresa
- ele começou a se preocupar com questões ambientais, e pensou: "O que
posso fazer, na minha empresa, para mudar o sistema, para torna-la
ambientalmente sustentável, para criar um sistema econômico que permita
que o progresso econômico continue?" Ele disse: "não venderemos o carpete.
Venderemos o serviço. Uma empresa nos contratar para acarpetar seus
escritórios. Digamos, por 10 anos. Nós faremos a manutenção. Se o carpete
se desgastar, nós o trocaremos. Mas o carpete deve voltar para a fábrica.
Quer ele seja de nilon, poliester, ele ser decomposto, reprocessado,
refeito, e voltar a forrar um outro chão". Essa mudança elimina a
necessidade da matéria-prima, pois sempre se usa o carpete no sistema. E
nada vai para o lixo, não há desperdício. Ele achou um modo de fechar o
ciclo. Assim, não é uma questão de usarmos o carpete, mas de como
fabricamos o carpete que usamos. Podemos acarpetar casas por toda parte,
não importa, com carpetes muito bons. Se o fizermos de um modo
ambientalmente sustentável. E o que ele fez por essa economia – e seu
objetivo ‚ não perder uma única molécula do carpete -‚ que ele fechou o
ciclo. Fica tudo dentro do ciclo. Basicamente ‚ nisso que temos de pensar,
em como fazer isso para a economia global. Como reestruturá -la para
atender nossas necessidades, mas sem agirmos de maneira autodestrutiva no
processo, como acontece atualmente. Continuaria sendo a produção, mas
utilizando materiais reciclados, não matéria-prima virgem. Pode haver um
uso maior da mão-de-obra, porque muitas indústrias voltadas para a
reciclagem usam mais mão-de-obra e menos matéria-prima do que as que temos
atualmente. Um dos motivos pelos quais o atual governo alemão estão
reestruturando seu sistema tributário, reduzindo o imposto de renda e
aumentando o imposto energético, para aumentar a eficácia energética da
economia e para estimular a criação de fontes de energia alternativas como
a energia eólica, que esta se tornando importante no norte da Alemanha.
A economia ambientalmente sustentável, que podemos ver, sabemos como ‚
podemos descrever com detalhes‚ voltada para maior uso de mão-de-obra. E
também ‚ uma grande oportunidade de investimento. Se reestruturarmos a
economia global atual, voltada para o combustível fóssil, o automóvel e o
descarte, tornando-a uma economia ambientalmente sustentável, ela não
apenas ser muito mais agradável, mas também ser uma grande oportunidade de
investimento. A maior oportunidade da História. Nunca houve nada igual. É
verdade que os EUA, que têm 5% da população mundial, emitem pelo menos 25%
do gás carbônico. Os EUA, sozinhos, desequilibram o sistema climático da
Terra. A questão não ‚ quanta energia consumimos, mas como a produzimos,
de onde ela vem. O interessante agora‚ que nos EUA há um grande
crescimento da energia eólica. O que teremos a longo prazo‚ que a economia
atual, baseada nos combustíveis fósseis, ser substituída por uma economia
solar/de hidrogênio. E, por solar, eu defino um grupo que inclui
combustíveis de biomassa, madeira, álcool, até‚ energia eólica, painéis
solares, etc. O que vemos agora‚ o seguinte: o motivo para o uso dos
combustíveis fosseis‚ que, quando compramos um litro de gasolina, só
pagamos parte do custo do uso da gasolina. A extração do petróleo, o
refinamento, a distribuição para os postos. É isso que pagamos. Não
pagamos pela poluição, problemas de saúde, danos causados pela chuva
ácida, mudança climática e danos ao sistema climático global. O que um
imposto do carbono faria seria incluir os custos da queima do combustível.
Ao comprarmos um litro de gasolina, pagaríamos o total, não apenas o
custo direto. Assim que isso acontecesse - pôr isso ‚ importante
reestruturar a tributação - assim que isso acontecer, todo o investimento
em energia começaria a mudar. Atualmente, há um grande crescimento da
energia eólica: na década de 90, vem crescendo 22% ao ano. O carvão cresce
0%, petróleo e gás natural, 2% cada. Mas a energia eólica cresce muito
rápido. E, em muitos lugares, tem um custo menor que o carvão. As novas
turbinas são muito eficientes. E há um enorme potencial. O Departamento de
Energia dos Estados Unidos fez um levantamento nacional de recursos
eólicos. O governo americano concluiu que 3 estados, Dakota do Norte,
Dakota do Sul e Texas,têm potencial de energia eólica suficiente para
atender a demanda de energia de todo o pais. Quando conseguirmos energia
barata do vento, nós a usaremos para eletrolisar a água e produzir
hidrogênio. O hidrogênio ser o combustível básico. Por isso falamos numa
economia solar/de hidrogênio. O interessante, que até‚ empresários de
petróleo estão discutindo a necessidade de mudar de uma economia baseada
no combustível fóssil para uma economia baseada no hidrogênio. Estão
começando a ver isso. Fiz uma palestra na conferência anual de empresas de
petróleo e falei sobre essa transição. Mas não sou apenas eu. Até membros
da indústria já falam nisso. A questão não é quanta energia produzimos e
utilizamos, mas como a produzimos, se ou não prejudicial, em termos
ambientais. O interessante do vento é que não altera o clima da Terra, não
gera nenhum poluente. Este é o caminho do futuro. Não, necessariamente o
quanto consumimos, mas como produzimos o que consumimos. E se produzirmos
de um modo ambientalmente sustentável, então, todos poderão ter um bom
padrão de vida e um estilo de vida saudável. O Brasil, com sua enorme
extensão territorial, tem uma abundância de energia solar. Há muita luz
solar no Brasil. Isso pode ser convertido em energia, em energia
bioquímica, que nós e outros seres vivos podemos usar pela fotossíntese.
Esse processo fotossintético também pode gerar energia na forma de álcool,
cana-de-açúcar e álcool combustível. Essa mesma energia pode ser
usada por painéis solares para gerar eletricidade, e a mesma energia solar
gera diferenciais de ventos, diferenciais térmicos que geram o vento. Em
termos de riquezas energéticas o Brasil é um país muito rico, rico em
energias renováveis. O sol - esse reator nuclear - torna o Brasil rico
em energia. A questão é como captar essa energia e como se afastar dos
combustíveis fósseis que afetam o clima da Terra e geram poluição em São
Paulo e partir para as fontes de energia renováveis. Esse é um desafio
para o Brasil e para o mundo. O interessante agora‚ que podemos ver as
tecnologias, por exemplo, a energia eólica. Há muitas fazendas nos EUA,
mais recentemente, em Iowa, onde a empresa local criou fazendas de vento.
Fez isso nas plantações de milho. As fazendas continuam produzindo o
milho, mas, ao mesmo tempo, têm turbinas para produzir eletricidade. Elas
produzem milho e eletricidade no mesmo local. A leste de São Francisco,
cria-se gado há muito tempo. Agora, também há turbinas eólicas. Eles
vendem carne e eletricidade. Isso esta se tornando um novo modêlo; e os
que possuem terras, em especial fazendeiros, poderão gerar eletricidade
junto com sua produção. Estamos vendo um novo modelo de energia. Nos EUA,
no Texas, há uma empresa de gás chamada Enron. Agora ‚ uma empresa global,
mas eles têm campos de gás natural, têm dutos no nordeste e meio-oeste dos
EUA e fornecem gás natural. Mas eles compraram duas empresas de energia
eólica e planejam usar a eletricidade do vento para eletrolisar a água e
produzir hidrogênio e aproveitar a infra-estrutura utilizada para o gás,
usando-a para o hidrogênio. E eles se vêm como parte da transição da
economia do combustível fóssil para a economia da energia solar/de
hidrogênio do futuro. Assim, já estamos vendo as empresas executivos que
olham para o futuro, começando a reestruturar a economia e investindo em
novas fontes de energia. Em primeiro lugar, não podemos destruir os
sistemas biológicos naturais. Em segundo lugar, a eficiência da conversão
de energia solar para energia utilizável‚ menor com a fotossíntese, muito
menor que com os painéis solares ou energia eólica. O interessante da
energia eólica‚ que ainda podemos aproveitar a terra. Captamos o vento no
alto, assim, captamos as duas fontes de energia. Esse ‚ o sistema mais
eficiente. E esse deve ser o nosso objetivo. Os governos têm um papel
central e, quanto mais complexo o mundo se torna, mais exigente ‚ esse
papel. As ONGs cresceram para ocupar o vazio deixado por governos em
vários países do mundo. E o crescimento do setor dessas organizações, as
ONGs, um interessante fenômeno social dos últimos 50 anos. É interessante
que falemos hoje do relatório "Estado do Mundo", que é um relatório
ambiental do estado do mundo. Ele deveria ser feito pelas Nações Unidas,
mas a ONU não faz um relatório ambiental anual. Ela faz para o estado da
alimentação e agricultura, para o estado da saúde no mundo, da organização
Mundial da Saúde. Mas como a ONU não faz um relatório ambiental, então,
uma ONG, neste caso, o Worldwatch Institute, se apresentou para preencher
esse vazio. O interessante é que o relatório que nós fazemos, produzido
por uma ONG, seja visto atualmente como semi-oficial. Governos do mundo
todo o usam, a ONU o usa, grupos ambientais o usam, professores o usam nas
universidades. Nos EUA, mais de mil cursos universitários o adotaram.
Falo isso para ilustrar que as ONGs tentam preencher os vazios que os
governos ou a ONU, não preenchem. É um fato interessante. Não significa
que o governo não seja mais importante. Um dos papéis das ONGs é
influenciar os governos. Na reunião da OMC, em Seattle, ficou bem claro
que as ONGs terão um papel importante, influenciando os governos que têm
representantes nessas organizações, para negociar a liberalização do
comércio. E os grupos ambientais querem ter certeza de que os avanços no
comércio não sejam ambientalmente destrutivos. O fenômeno das ONGs é um
interessante fenômeno político e social, ele representa um terceiro setor.
E é muito mais desenvolvido em determinados países. No Japão,
tradicionalmente, havia o governo e o comércio. Basicamente isso. Não
havia um setor independente, um terceiro setor. As ONGs não existiam.
Agora, o terceiro setor está crescendo. No Brasil, há um terceiro setor
bem desenvolvido. Há muitos grupos ambientais, muitos grupos trabalhando
em todos os tipos de questões sociais. A evolução da comunidade das ONGs
no mundo‚ um importante avanço social. Historiadores reconhecerão essa
importância quando escreverem a história da segunda metade deste século.
Há dois aspectos a se considerar na sua pergunta. Um‚ é usar recursos que
produzem alimento para produzir combustível. Se a projeção do crescimento
populacional mundial de mais 3 bilhões de pessoas até‚ o ano de 2015 se
realizar - isso‚ quase tanto quanto tivemos em meio século -, precisaremos
de todos os recursos agriculturáveis só para produzir alimento. Notei que,
embora o Brasil produza muito mais álcool - principalmente da cana, que é
o modo mais eficiente de produzir local a partir de plantações - é também‚
o maior importador de grãos do ocidente. A longo prazo, teremos que
escolher entre o uso da agricultura para produzir combustível ou alimento.
Talvez não tenhamos o bastante para produzir combustível. Desde o livro
que você citou, houve um grande avanço tecnológico, em painéis solares e
em energia eólica, que reduziram muito o custo e aumentaram a eficiência
da produção de energia dessas fontes. No futuro, nas vemos a economia da
energia solar/de hidrogênio crescendo baseada mais na energia eólica e em
painéis solares que na biomassa. Haver lugares onde fará sentido converter
biomassa em combustível. Afinal, a madeira foi o primeiro combustível e
foi importante para a evolução humana, começando há meio milhão de anos.
Foi o primeiro meio organizado de produzir energia. Mas, a longo prazo,
teremos que criar meios mais eficientes de converter a luz solar em
energia utilizável. Por enquanto, temos a energia eólica e os painéis
solares. Uma nova tecnologia desenvolvida no Japão‚ um revestimento
solar para telhados que transforma o telhado da casa, do edifício, numa
usina elétrica para a edificação. Ele gera eletricidade. Isso é
interessante porque todos os edifícios têm telhados e, se o telhado
produzir eletricidade, além de abrigar, isso pode ser uma
vantagem. Isso está se espalhando rapidamente no Japão, em vários
países em desenvolvimento e também na Alemanha, na Europa, onde há um
grande impulso. Outra coisa em que temos de pensar‚ em quão rápido podemos
mudar para a economia de hidrogênio e deixar a economia baseada no carbono
que temos agora. O interessante aqui - e falamos disso no "Estado do
Mundo" -‚ que um grupo de empresas procurou o governo da Islândia para
torna – lá a primeira economia do mundo baseada no hidrogênio. Isso é
interessante porque as duas empresas que lideram o consórcio são a "Shell
Oil" e a "Daimler-Chrysler", antiga "Daimler-Benz". A "Shell Oil" está
interessada porque há muita energia hídrica barata na Islândia e eles
podem usa –la para produzir hidrogênio. O hidrogênio poder ser usado
como combustível para o transporte, por exemplo. Ou no motor tradicional
de combustão interna, queimando o hidrogênio como queimamos a gasolina,
ou, o que‚ mais eficiente, usando calculas combustíveis. A
"Daimler-Chrysler"‚ pioneira no desenvolvimento de automóveis movidos a
células combustíveis. Bem diferente dos motores de combustão interna.
A "Daimler-Chrysler" vê a Islândia como um país onde pode introduzir
seu motor usando o hidrogênio como combustível. Estamos vendo um salto
empresarial para o futuro, em alguns casos, adiante dos governos. No foi o
governo da Islândia que teve a idéia. Foram empresas que tiveram a idéia.
Elas procuraram o governo querendo tornar a Islândia a primeira economia
mundial baseada no hidrogênio. E já estão começando a caminhar nessa
direção. A longo prazo, o sistema energético global, baseado em sistemas
de energias renováveis, ser dominado por fontes de energia que vêm do sol,
que produz energia com maior eficiência. Agradeço por essa pergunta.
Quero falar também do sistema de transportes, já que citou os carros. É
verdade que a Índia nunca ter um carro em cada garagem assim como a China
não ter um carro em cada garagem. Não há espaço suficiente para acomodar o
carro como uma peça central do sistema de transportes. Na China, um grupo
de cientistas conceituados contestou a idéia do governo de encorajar a
fabricação de automóveis na China. O principal motivo‚ que não há terras
suficientes na China para produzir veículos para que todos tenham um
carro. Não há espaço para as ruas, estradas, estacionamentos... e para
alimentar o povo. É preciso fazer uma escolha. A questão básica da sua
colocação‚ que temos de replanejar o sistema de transportes. O automóvel
foi um meio de transporte atraente durante boa parte deste século, pois dá
mobilidade. Isso numa época em que o mundo era muito rural. Mas, com o
mundo cada vez mais urbanizado, como hoje, vemos que há um conflito
natural entre o automóvel e a cidade. O automóvel não pode dar a
mobilidade prometida num ambiente urbano. Se você mora em São Paulo,
conhece os congestionamentos. Chegou-se a um ponto em que vários governos,
governos municipais e federais, começam a questionar se o automóvel deve
ser o centro do sistema de transporte urbano. Em Londres, atualmente, a
velocidade média dos carros na cidade é quase a mesma das carruagens há um
século atrás. Apesar dos investimentos. Não que o carro não corra,
mas, ele não se move por causa dos congestionamentos. Ano passado, na
Tailândia, em Bankoc, para falar de um país em desenvolvimento, o
motorista passou, em média, 44 dias de trabalho sentado em seu carro, indo
para lugar nenhum. Não funciona. Temos de repensar o sistema. Vemos a
evolução de um novo modelo de transporte urbano centrado em vias férreas,
incluindo sistemas de metrôs, e na bicicleta. Nos EUA, algo interessante,
que envolve a polícia, ocorre em 300 cidades. Os policiais descobriram
que, quando são chamados para uma ocorrência, uma emergência qualquer,
demoram para chegar. Eles ligam a sirene, piscam luzes, mas ‚ difícil se
deslocar nos congestionamentos então, começaram a pôr policiais em
bicicletas. E descobriram que um policial de bicicleta atende 50% mais
ocorrências em um dia que um colega numa viatura. Quando vou correr à
tarde, após o trabalho, costumo correr - passo pela casa do
vice-presidente. Os agentes fazem a segurança em bicicletas, não em
carros. Até na Casa Branca eles usam bicicletas. Mas o que a polícia
descobriu em 300 cidades, nos EUA‚ que a bicicleta‚ melhor que a viatura,
em muitas situardes. Os policiais são mais produtivos, ficam mais próximos
das pessoas, e o custo da manutenção da bicicleta ‚ muito menor que o de
um carro. Estamos vendo uma mudança na idéia de como deve ser um
sistema de transporte urbano. E ele não ‚ mais centrado no automóvel. Se
quisermos mobilidade na cidade, o automóvel não serve. Essa‚ a conclusão
básica. Estamos vendo uma mudança nos sistemas de transporte. Curitiba
é um exemplo brasileiro para o mundo, replanejando o sistema para diminuir
o papel do carro e, assim, os congestionamentos. Quanto pergunta sobre
crescimento populacional...Quero falar outra coisa. Se a China atingisse
um carro ou dois em cada garagem,como nos EUA, eles consumiriam 80 milhões
de barris de petróleo pôr dia. O mundo produz, atualmente, apenas 72
milhões de barris. Não é possível. Não irá acontecer. Temos de repensar
a pergunta. A pergunta não é quantas pessoas terão carros, mas como dar
maior mobilidade. Estudiosos chineses recomendam um sistema ferroviário de
alta tecnologia alternando com a bicicleta. Quanto à outra pergunta.
No Worldwatch Institute, achamos que a questão da água é a questão mais
subestimada no mundo. De muitas formas‚ um problema invisível. Há 20 anos,
o mundo começou a se preocupar com as florestas tropicais. E podíamos ver
as florestas tropicais sendo derrubadas, sendo queimadas, víamos na
televisão. Mas o lençol freático não é visível. Sabemos que a água está
acabando quando o poço seca. E isso está acontecendo em várias partes do
mundo. Estima-se que na Índia a quantidade de água extraída da terra é o
dobro da quantidade de água que volta pela chuva. Assim, os lençóis
frenéticos estão baixando na Índia. E, em algum momento, haver cortes no
fornecimento. Deixar de pensar no crescimento populacional e na água ir
comprometer a capacidade dos governos de fornecerem a qualidade de vida
que as pessoas querem. A questão básica, pensando apenas na energia, não‚
quanto utilizamos e, sim, como a produzimos. Mas pensando na vida, em si,
se quisermos mobilidade, se isso for um objetivo social - e costuma ser –
já temos de pensar como podemos fornecer mobilidade, o máximo de
mobilidade. E não é com automóveis. Respondendo a essa pergunta,
diminuímos o nível de consumo se queremos mobilidade... Para ter
mobilidade, nos EUA, os policiais usam bicicletas. Se satisfizermos o
desejo da mobilidade, isso implicar uma boa redução no consumo. Também há
uma situação nos EUA em que notamos um desequilíbrio entre as calorias que
consumimos e as calorias que utilizamos, como indivíduos. As pessoas
estão cada vez mais obesas. Ai elas vão para academias, onde ficam numa
bicicleta ergométrica por meia hora suando, gastando calorias, depois
tomam banho, entram no carro e voltam para casa. Elas fazem isso porque
não se sentem … vontade indo trabalhar de bicicleta. O sistema de
transportes não‚ amigável para as bicicletas. Ele foi projetado para
automóveis. Temos de mudar isso. Quando mudarmos essa situação, o ar
ficará mais limpo, o clima será menos afetado e seremos mais saudáveis.
Nós estaremos ganhando. Será ganhar, ganhar e ganhar. A maioria das
pessoas concordaria que o automóvel não funciona. Mas temos de replanejar
o sistema. Automóveis não funcionam nas cidades, então temos de replanejar
o sistema para gerar a mobilidade, sem afetar o clima e sem a poluição que
temos. Primeiro, eu não defendo a idéia de que há uma solução
tecnológica para cada problema. Acho que os avanços tecnológicos podem
desempenhar um papel importante. Cito os avanços tecnológicos na geração
de energia elétrica eólica. Há 50 anos, era muito mais simples e primitiva
em comparação com a de hoje, quando temos turbinas baseadas em projetos e
desenhos aeroespaciais. A tecnologia ajuda a resolver muitos problemas,
mas não resolve todos, e não‚ tem solução para todos os nossos problemas.
Muitas vezes, é questão de replanejar o sistema, como nos transportes.
Falamos nas bicicletas como sendo o veículo do futuro. Muita gente não
sabe que a produção mundial de bicicletas é três vezes maior que a de
carros. Há tecnologias que testamos, mas que não funcionaram. Por exemplo,
o transporte supersônico. No final da década de 60, eu li artigos
afirmando que, se europeus ou americanos o produzissem primeiro, isso
determinaria o futuro da história econômica. Seria uma vantagem decisiva.
Na verdade, nenhum avião desses foi vendido comercialmente. Apenas
empresas áreas estatais o compraram. É uma tecnologia acabada. Energia
nuclear é outra tecnologia em que o fator econômico pesou e não é mais uma
fonte de eletricidade competitiva. Na questão dos organismos transgênicos‚
uma pergunta difícil para mim, como analista, responder. Há situações em
que... Primeiro, eu diria que o potencial para aumentar a produção mundial
- alguns anúncios das empresas envolvidas na biotecnologia dizem que se
pode dobrar a produção mundial, a fim de atender futuras demandas... eu
acho que não. Digo isso porque cientistas, usando técnicas tradicionais,
fizeram o máximo possível para aumentar a produção. E atingimos vários
limites fisiológicos agora. Incluindo eficiência fotossintética e outros
processos metabólicos nas plantas, então, a questão torna-se: "Podemos
usar a engenharia genética para reduzir o uso de inseticidas?" E, se
tivermos de escolher entre o uso de inseticidas, conhecendo alguns dos
riscos associados a isso, ou o uso de um alimento geneticamente
codificado, com informações para se defender contra inseticidas, qual ‚ a
melhor tecnologia? Qual‚a menos prejudicial, ambientalmente? Como
analista, eu não sei a resposta. Em parte porque sabemos mais sobre o
efeito de inseticidas sobre o ambiente, sobre a saúde, do que sabemos
sobre as conseqüências ambientais, inclusive sobre a saúde, de alimentos
transgênicos. É uma questão complexa e, como líder de um instituto de
pesquisas, tenho de pensar com a cabeça, não com minhas emoções. E, em
alguns casos, organismos transgênicos levam ao aumento do uso de
herbicidas. Soja é um bom exemplo. A soja‚ modificada para resistir aos
herbicidas para que herbicidas possam ser usados na nova soja de uma forma
que não podiam na soja tradicional. É uma questão complicada, e lembro-me
de um livro chamado: "O Declínio das Sociedades Complexas". Nele, o autor
diz que, quando a sociedade atinge o ponto em que a tecnologia criada
ultrapassa a capacidade que a instituição política tem para gerenciá-la,
ela normalmente decai. É uma tese interessante. Mas acho que, com muitas
das nossas tecnologias atuais, nossa compreensão das conseqüências ‚
inadequada. Isso ocorre com o uso de inseticidas e com o uso de alimentos
transgênicos. A pergunta que você fez, sobre nossa espécie ser um câncer
no ambiente‚ uma questão profunda. No mês passado, eu estive na Áustria
para uma conferência de empresários. E um dos palestrantes era líder de um
instituto de pesquisas na Suíça. Um instituto de pesquisas de política
pública. Ele disse algo para mim, quando estávamos sentados - ele
sentou-se ao meu lado. Ele disse: "Tecnologia ‚ a experiência da natureza
com o homem". Ele inverteu as coisas. Sempre vemos a natureza começando
com nós mesmos. Ele olhava para nós começando com a natureza. É
preciso pensar nisso. Estamos claramente em contraste com antigas
civilizações que tomaram um caminho ambientalmente insustentável. Nós
somos uma civilização global. Eles eram civilizações locais. O que houve
na Mesopotâmia, ou com os maias, afetou apenas a região, não o resto do
mundo. Hoje, sabemos que somos parte de uma economia global, que
estamos alterando o ecossistema da Terra, o clima da Terra. Não apenas o
clima dos EUA, ou o clima do Brasil. E fazemos isso sem compreender
totalmente. Se possível, gostaria de falar sobre o aquecimento global.
Sobre as evidências disso, o que pode significar. E conseqüências. A idéia
de que alguém possa ver nossa espécie como um câncer no ambiente global
não é absurda. Estamos claramente numa situação, agora, na qual, se não
fizermos ajustes rapidamente no relacionamento entre nós, 6 bilhões,
atualmente, os sistemas naturais e os recursos dos quais dependemos - a
biodiversidade de vida, recursos hídricos, clima - veremos os sistemas
naturais solaparem a economia. Assim como em muitas civilizações antigas.
Esse é o grande desafio: fazer as correções no caminho econômico que irão
proteger os sistemas ambientais dos quais dependemos. As cidades não são
naturais. Elas necessitam de concentrações de energia, água, alimentos,
materiais, que temos de reunir. Trazemos alimentos do outro lado do mundo,
materiais de outro lugar; até‚ água pode vir de centenas de quilômetros de
distância. Pequim ter um sistema que tratar água de um rio a 1.400 km de
distância. A Califórnia usa água do Colorado, que‚ transportada centenas
de quilômetros até‚ Los Angeles. Nós concentramos enormes quantidades
de energia, alimento, água e materiais, e depois temos de disseminar tudo.
Não podemos deixar os poluentes se acumularem, ou as cidades ficariam
inabitáveis. Assim, jogamos o lixo em rios, ou o descarregamos no ar para
nos livrarmos dele, ou para evitar que se acumule. Mas alguém vivendo na
cidade requer muito mais recursos, energia para transportar água e
alimentos, que alguém vivendo mais perto da natureza. É possível, no
futuro, se houver escassez de alimentos, que haja uma mudança.
Historicamente, desde o início da revolução Industrial, os que viviam nas
cidades tinham a vantagem econômica pois controlavam a tecnologia e o
capital. Mas, no futuro, se água e terras ficarem escassos, aqueles que
controlam terras e água, a população rural, e não a urbana, ter a
vantagem. É possível que os termos comerciais, que, historicamente, têm
favorecido a cidade, voltem a favorecer a real rural. Isso pode reverter o
processo de urbanização. Não pensamos nisso, supomos que a rápida
urbanização continuar no próximo século. Talvez não. Pelos motivos
implícitos na sua pergunta. Muita gente pergunta se o clima enlouqueceu
porque parecem haver mais extremos. Uma das características do aumento da
temperatura é em escala mundial, o aparecimento frequente de extremos. Uma
das coisas que fazemos no "Estado do Mundo" ‚ colocar a temperatura
média global em um gráfico que começa em 1866 e vem até o
presente. Quando fomos colocar o dado de 1988, ele ultrapassou o topo
do gráfico. Tivemos de mudar a escala do eixo vertical por causa dele.
Isso tem várias consequências. Um: causa tempestades mais destrutivas.
Quanto mais energia no sistema, quanto mais alta a temperatura das águas
tropicais e subtropicais, mais energia irradia para a atmosfera,
alimentando sistemas de tempestades. Em 1988, tivemos algumas das piores
tempestades, algumas das piores inundações já registradas. Em 1988, 300
milhões de pessoas foram forçadas a sair de suas casas por eventos
climáticos, tempestades, inundações etc. Metade delas na bacia do rio
Iang-tsé, na China, que teve uma das piores inundações da história. Quando
a temperatura sobe, há um maior derretimento de neve, como no Himalaia, o
que causou a elevação do nível do Iang-tsé; isso faz aumentar a
evaporação; quanto mais alta a temperatura, mais evaporação; mais água
sobe, mais água desce. Houve um deslocamento de pessoas inacreditável. Mas
uma das coisas que mais me preocupa no clima, - além do fato de os 15 anos
mais quentes do século serem todos a partir de 1980, assim há uma clara
tendência ascendente na temperatura. O que mais me perturba ‚ a quantidade
de gelo derretendo. Vemos partes da calota antártica se separando num
índice alarmante nos últimos dois anos. Nós vemos gelo derretendo na
Antártica, no Alasca. Estive na Áustria falando sobre o "Homem do Gelo",
descoberto nos Alpes, na fronteira entre Áustria e Itália, há sete anos.
Alguns montanhistas encontraram um corpo saindo da geleira porque o gelo
derretia e alguém que estava lá havia 5 mil anos passou a ficar visível.
No Canadá, próximo do Alasca, há poucos meses, outro corpo foi
encontrado saindo de uma geleira devido ao derretimento. Nossos ancestrais
estão, literalmente, emergindo do gelo com o derretimento, e eles têm um
recado para nós. O recado‚ a resposta a sua pergunta: a Terra está
esquentando. Quanto mais gelo derrete, mais o nível do mar sobe. E regiões
costeiras no mundo serão ameaçadas. Numa época em que a população
continuar a crescer, a superfície habitável vai diminuir. Este é um dos
perigos da mudança climática: a elevação do nível do mar. Em termos de
mudanças nas políticas governamentais, eu colocaria no topo a mudança do
sistema tributário para diminuir o imposto sobre a renda e aumentar
impostos sobre atividades ambientalmente destrutivas. A segunda prioridade
seria o que chamo "eco-rotulação". Permitir que o consumidor saiba, ao
comprar um objeto de madeira, móveis, por exemplo, que ele saiba se a
madeira veio de uma floresta que‚ reflorestada ou se foi apenas cortada
sem pensar no ambiente. Deixar os consumidores falarem com seus bolsos. Os
consumidores podem falar com seus votos, quando escolhem seus líderes. Mas
também podem falar com seus bolsos. Uma das iniciativas mais bem
sucedidas nos EUA nos últimos anos‚ uma na qual empresas de eletricidade
oferecem aos seus clientes uma escolha entre energia vinda de combustíveis
fósseis, como carvão, ou energia de fontes renováveis, como o vento, ou
painéis solares. Ás vezes, isso envolve um aumento no custo, e o cliente
dever pagar 20% mais para ter energia do vento ou solar em vez das fontes
tradicionais. Mas, pelo menos, eles têm a opção, e muita gente está
escolhendo a que hoje‚ a fonte mais cara, mas é renovável. Ao longo do
tempo, o custo dever diminuir. Mas agora, as empresas investem em fazendas
de vento para terem capacidade de atender essa demanda. A idéia de
informar aos consumidores sobre os efeitos ambientais das coisas que
compram, a eficiência do motor de um carro, em termos de km/l, um passo
essencial para criar um futuro ambientalmente sustentável. Nós mudamos
o comportamento em função de novas informações ou novas experiências e, em
muitos casos, novas informações irão trazer as mudanças de que precisamos.
Uma das coisas que devemos perguntar‚ o que é importante para nós. E o que
as maiores religiões nos ensinam‚ que o consumo não leva à felicidade. Na
verdade, consumo excessivo pode causar infelicidade. Ficamos preocupados
demais com bens materiais e perdemos a noção do que é realmente
importante. No meu caso, eu levo uma vida simples. Eu tenho uma bicicleta,
apartamento de um quarto em Washington. Se alguém me desse um carro, eu
não aceitaria. É muito trabalho. Encontrar vaga para estacionar, levar
para conserto, o seguro... É muito mais fácil andar de bicicleta ou a pé
para me deslocar em Washington. Cito isso como um exemplo. Já tive um
carro, há 25 anos. Mas vejo a mudança para a bicicleta como uma melhora na
minha qualidade de vida. Uma melhora significativa. Isso também diminui o
consumo de recursos. E, quando as pessoas tiverem mais opções, elas
perceberão que um consumo maior não leva a uma vida melhor. Sou amigo de
Bill McKibben e conheço sua obra. A idéia da família com um filho nos EUA
é interessante. Sua questão central‚ a mesma que levantei várias vezes,
ele escreveu um livro sobre isso, é que a decisão ambiental mais
importante para um americano, quantos filhos ele ter. Por causa dos altos
níveis de consumo. E ele diz que, por enquanto, devemos tentar fazer o que
os chineses fazem, que é limitar o número de filhos a um até‚
estabilizarmos o consumo e a relação entre nós e o ambiente. Pensando
no crescimento populacional, eu acho que, para muitas sociedades, voltando
à questão da água, muitas sociedades antecipam futuras opções para
melhorar a qualidade de vida porque a população está ultrapassando o
suprimento de água. Nós supomos, nas nossas sociedades, no Brasil e nos
EUA, que um dia todos terão água encanada e poderão tomar banho. Na China
e na Índia não será possível. Não há água suficiente para todos tomarem
banhos de rios. E eles estão começando a perceber isso. É um dos motivos
para os chineses decidirem reduzir o crescimento populacional, pois a
população ultrapassa a disponibilidade de recursos básicos. Esta é uma
questão filosófica básica, um ponto filosófico básico. Com os avanços
tecnológicos e a urbanização, nós nos separamos da natureza e pensamos que
existimos independentes da natureza. Mas somos tão dependentes dela quanto
nossos ancestrais. Não podemos existir sem os sistemas naturais da
Terra. E nós estamos com problemas, porque esquecemos como dependemos
desses sistemas e como é importante proteger esses sistemas. Nossa
sobrevivência futura depende de nos vermos, não separados da natureza, mas
como parte dela. A maioria das instituições financeiras do mundo está
acostumada a fazer grandes empréstimos, especialmente no plano do
desenvolvimento internacional. E a idéia de alguém fazer um empréstimo de
US$100, em vez de US$100 milhões, não faz sentido. Eles estão certos nesse
sentido. Significa que precisamos de instituições locais. Em muitos casos,
ONGs. E essa história de sucesso, que originou a idéia dos empréstimos de
US$50, US$100 para habitantes de reais rurais, originou-se em Bangladesh,
com o Banco Grameen. Foi uma ONG, não foi a iniciativa de um banco
financiado pelo governo, que teve sucesso. Essas coisas tendem a funcionar
melhor quando crescem localmente e envolvem habitantes locais, fora do
governo e fora das maiores instituições financeiras internacionais. É
possível que o Banco Mundial financie sementes para uma ONG que esteja
organizada para fazer isso. Eu não excluo essa participação, mas a
administração funciona melhor se for local e fora dos canais
governamentais oficiais. Às vezes, casais recém casados fazem essa
pergunta. Alguns responderam por conta própria. E alguns decidiram não
ter filhos por causa dos problemas que o mundo enfrentar nas próximas
décadas. Não‚ fácil responder essa pergunta. Nós enfrentamos desafios
enormes. E uma das questões ‚ se as instituições políticas serão capazes
de gerenciar os problemas que estão surgindo. Como a mudança climática,
por exemplo. Até agora, se o governo dos EUA servir de referência, não
estamos indo bem. Não estamos conseguindo estabilizar o clima. Quanto
ao esforço para estabilizar a população, há partes do mundo que estão
perdendo essa batalha. Eles podem ter problemas econômicos por não
conseguirem reduzir a população logo. Pensando em quantos filhos se deve
ter, a primeira coisa que falo é que, num mundo de 6 bilhões de pessoas,
não devemos pensar em ter mais de 2 filhos. É a substituição dos níveis de
fertilidade. Se queremos estabilizar a população mundial, é uma
responsabilidade que cada um de nós deve assumir. Quanto ao mundo em que
nossos filhos e netos viverão, como podemos visualizar, se devemos ter
filhos ou não, é algo que não posso responder. Cada pessoa deve fazer a
própria avaliação. Posso dizer que nossas instituições políticas têm um
grande desafio com os problemas atuais. Você citou a AIDS. Está se
tornando um problema no Brasil. Mas, ao sul do Saara, na África, a
epidemia de HIV está dizimando as sociedades. Para dar um exemplo, numa
das universidades da África do Sul, na Universidade de Durban, o índice de
infeção por HIV entre os alunos ‚ de 25%. Eles são os futuros líderes do
país. Em alguns países ao sul do Saara, mais de um quarto dos adultos são
soropositivos. Se não houver um milagre médico, esses países perderão um
quarto da população na próxima década. Enfrentamos uma epidemia sem igual
na era moderna. A expectativa de vida caiu em países como o Zimbabue. De
65 anos, há poucos anos, para 39 anos em 2010. É uma expectativa de
vida da Idade Média, não do mundo moderno. Esses são exemplos em que os
governos não conseguiram responder a uma nova ameaça. No caso, o vírus
HIV. Posso falar dos efeitos econômicos e sociais, mas eles são
devastadores. E eles estão atrasando o relógio do desenvolvimento em pelo
menos meio século. Lidar com a escassez de água ser igualmente difícil
para governos na Índia, China. Mudanças climáticas serão problema em toda
parte. É difícil dizer se seremos capazes de responder bem a esses
problemas. Não posso responder sua pergunta. Cada casal ter de decidir por
si mesmo. Há duas ou três perguntas aqui. Uma ‚ sobre tecnologia. A
tecnologia não‚ solução para todos os problemas. Um problema que ela não
soluciona‚ a distribuição da renda. Publicaremos no novo "Estado do Mundo"
dados sobre a fatia da população que está supernutrida e com excesso de
peso e a fatia que está subnutrida e com pouco peso. Pela primeira vez, a
quantia de pessoas com excesso de peso equivale à quantia de pessoas com
pouco peso. Isso é uma evidência da má distribuição de recursos. O Brasil,
é verdade, tem uma das piores distribuições de renda do mundo. A
tecnologia não resolver esse problema. É um desafio político. Não há
substituto para isso. Na questão do E-9, o que fizemos no "Estado do
Mundo", há alguns anos, foi olhar para o G-7, o grupo econômico formado há
20 anos, quando havia instabilidade no sistema monetário, e esse grupo
representaria as principais economias, que se reuniriam uma vez por ano
para avaliar desenvolvimentos, ver o que precisava ser feito no campo
econômico. Mas, de muitas formas, os maiores problemas do mundo, hoje,
não são econômicos. Há problemas econômicos, mas os verdadeiros desafios
são ambientais. Estabilizar o clima, estabilizar a população, proteger a
diversidade biológica da Terra. Posso continuar com a lista, todos
conhecem. Mas não há um grupo comparativo, então olhamos para: consumo e
produção, terras, espécies vegetais e animais, diversidade biológica, e
identificamos 9 países responsáveis por mais da metade da emissão de
carbono, mais da metade da diversidade biológica da Terra. O Brasil é um
desses 9 países. O Brasil não é membro do G-7, mas‚ é membro do E-9. Os
outros membros são África do Sul, China, Índia, Indonésia e Japão. Na
Europa, Rússia e Alemanha. No hemisfério ocidental, Brasil e Estados
Unidos. São países que devem se reunir periodicamente para avaliar os
indicadores ambientais, ver como estão progredindo, se estão na direção
correta; se não, o que deve ser feito. Esses 8 países têm a capacidade de
tomar decisões que afetarão o futuro do mundo, assim como o G-7 pode tomar
decisões econômicas. Achamos importante fazer essa distinção. O fato
de o governo americano não ratificar o Protocolo de Kioto ‚ constrangedor
para mim. Temos a mais sofisticada pesquisa climática nos EUA. A maioria
dos modelos de computador que simulam os efeitos do gás carbônico no clima
são americanos. Temos as informações, temos os maiores cientistas. Mas
nossos políticos, em especial os congressistas, estão muito atrás do povo.
E, algum dia, as pessoas nas ruas notarão que algo aconteceu. Todos
saberão que o clima mudou. E o Congresso continuar agindo como se nada
tivesse acontecido. Isso pode mudar rapidamente, e o governo pode ter um
papel importante. Pouco antes da Conferência de Kioto, há dois anos, a
Casa Branca notou que o povo não embarcou na questão, não daria o apoio de
que necessitávamos. Então eles fizeram algumas coletivas, cientistas
falaram das mudanças climáticas para a imprensa. O que sabemos, o que não
sabemos, quais os riscos, o que devemos fazer. Foi um passo importante
para elevar a compreensão popular. Depois fizeram outra sessão para os
programas de TV que dão a previsão do tempo para os dias seguintes.
Falaram com eles sobre isso. Para que, quando falassem de uma onda de
calor, eles a colocassem no contexto do aquecimento global. Não seria
apenas uma aberração. Num mundo que muda tão rápido, o governo‚
responsável por educar o povo pelos meios de comunicação, algo que não
acontecia antes. Qual ‚ a segunda parte da sua pergunta? O que estamos
fazendo. Somos um instituto de pesquisas apartidário e, por lei, não
podemos fazer lobby. Nós fazemos a análise, a pesquisa, divulgamos a
informação publicamente, trabalhando com os meios de comunicação,
editoras, fazendo coisas como aqui no Brasil, publicando o "Estado do
Mundo" o "Worldwatch Magazine". Tornando disponível para o maior número de
pessoas, não só nos EUA, mas no mundo todo, os resultados das pesquisas,
as novas informações, para dar uma noção de como precisamos reestruturar a
economia, mudar as prioridades, transformar as políticas para criar um
sistema econômico ambientalmente sustentável. Como criar uma economia que
permita a continuidade do progresso econômico. Uma das coisas que fizemos
no "Estado do Mundo", 1999, foi olhar o século passado como base para o
futuro. Não projetar para o próximo século, mas para ter uma noção do
caminho adiante. O que vemos é o que descrevo como a aceleração da
história. As coisas estão muito rápidas agora. Em sociedades
tradicionais, os membros mais velhos da tribo ou da vila eram os que
detinham a sabedoria. Porque eles estavam lá havia mais tempo e passavam a
sabedoria para as gerações seguintes, para os mais jovens. Hoje, tudo muda
tão rápido, que, em pouco tempo, muitas vezes, nas informações econômicas,
por exemplo, são os jovens que têm o conhecimento e eles o passam para os
mais velhos. Contratamos uma jovem para ser nossa "Webmaster" que tem 23
anos. Ela é recém-saída da faculdade. Mas sabe mais sobre aquilo que
qualquer membro da equipe. Temos que procurar os jovens. Falo isso porque
a aceleração das mudanças‚ tão grande, quer seja no clima, ou na
composição da vida vegetal ou animal na Terra, ou nos lençóis freáticos,
com novas doenças, como o vírus HIV. Tudo acontece tão rápido, que temos
dificuldade de responder rapidamente. É essa noção de mudanças aceleradas
que nos preocupa. Há 40 anos, os cientistas diziam que a possibilidade de
novas doenças infecciosas dizimarem populações era muito real. Eles não
sabiam quando, mas sentiam vindo. Agora nós vemos uma doença infecciosa
dizimando populações ao sul do Saara. Quando fundamos o Worldwatch
Institute, há 25 anos, o aquecimento global era uma hipótese científica.
Agora, temos evidências do aquecimento global. Os 15 anos mais quentes
do século vêm depois de 1980, a tendência‚ muito clara. É essa aceleração
da história e a nossa capacidade, como indivíduos, e das instituições
políticas se ajustarem a ela que mais me preocupa. Nesse processo, a
informação atualizada é fundamental para guiar o processo de mudança e
direcionar a resposta de ameaças como o aquecimento global, ou a epidemia
de HIV, ou o abaixamento dos lençois freáticos. O papel dos meios de
comunicação, agora, é muito mais importante do que jamais foi, porque,
historicamente, o papel deles tem sido noticiar. Mas, agora, com tudo
acontecendo tão rápido, temos de educar uma geração de adultos sobre o
aquecimento global. Quando eu estudava, isso nem foi citado, ninguém
pensava nisso. Temos de nos educar e os meios de comunicação são a única
instituição que as sociedades têm para elevar rapidamente a compreensão
pública a ponto de a população apoiar respostas políticas efetivas. No
caso do aquecimento global, por exemplo. Só posso elogiar você e seus
colegas no programa por discutirem essas questões. Eu acho que são
questões que moldarão o futuro da civilização humana.
Muito
obrigado.
O WWI-Worldwatch Institute, estabeleceu paraceria no
Brasil coma UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica, para divulgação e
publicação dos seus trabalhos em português. http://www.wwiuma.org.br/
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