CONTINUAREMOS A COMER CARNE
Folha de São Paulo - 04 de novembro 1999
Ed Ayres
Talvez
não, se nos conscientizarmos do que a sua produção e massa está causando à
nossa saúde.
Quando Júlio
César fez sua entrada triunfal em Roma, no ano 45 a.C., ele celebrou o feito
com um suculento banquete à base de carnes, oferecido a milhares de convidados.
Desde que o homem aprendeu a dominar o fogo, as vitórias nas guerras, nos
esportes, na política e no comércio foram marcadas por orgias gastronômicas,
nas quais eram consumidas enormes quantidades de carne. Mesmo hoje em dia, um
dos principais sinais de ascensão social nos países em desenvolvimento é o abandono
de uma dieta à base de verduras e cereais, dando lugar a uma alimentação rica
em carnes.
Desde 1950, o
consumo mundial "per capita" do produto aumentou mais de 100%.A carne
não é apenas um alimento, é também uma forma de recompensa. No próximo século,
no entanto, isso poderá mudar. Assim como tomamos consciência do custo social e
econômico do consumo de cigarros, descobriremos que é impossível ignorar o
preço da criação massiva de gado, aves, porcos, carneiros e peixes, para
alimentar uma população em contínuo crescimento. O custo inclui o uso indevido
das águas e da terra, o alto nível de contaminação produzido por fezes de
animais, o aumento nas taxas de doenças cardíacas e outras enfermidades
degenerativas e a destruição das florestas.
Consideremos o
impacto nas reservas de água. Para produzir 450 gramas de carne de vaca, são
necessários três quilos de sementes. Estes, por sua vez, requerem 3.000 litros
de água. No mundo inteiro, é cada vez maior a quantidade de água usada na
criação de porcos e galinhas, em vez de ser empregada na irrigação das
plantações destinadas ao consumo direto. O fato está provocando o esgotamento
de milhões de poços. A Índia, a China, o norte da África e os Estados Unidos
registram uma escassez de água doce, pois atualmente gastam suas reservas em um
ritmo superior à velocidade com que as chuvas conseguem repor as fontes
naturais.
Em regiões onde a
água é escassa e a população continua aumentando, os governos terão de
controlar o déficit, destinando a água para a produção de alimentos, em vez de
usá-la em criações de animais. A nova política deixará a carne apenas ao
alcance dos ricos.Muita gente irá protestar, alegando que os produtos vegetais
não fornecem tanta proteína quanto a carne. E têm razão. Mas os nutricionistas
dirão que os países ricos consomem proteína em excesso, e que existe uma grande
variedade de alimentos vegetais - hoje desperdiçada como ração para animais de
criação - capaz de oferecer as doses adequadas de proteína de que
precisamos.Infelizmente, o problema não é apenas uma questão de capacidade
produtiva.
A produção de
carne em grande escala tornou-se um fator consideravelmente poluidor. As fezes
de vaca provocam morte de peixes e surgimento de doenças. Nos Estados Unidos, o
volume de fezes animais é 130 vezes superior ao de excrementos humanos. Uma
fazenda de suínos no Estado de Utah, por exemplo, produz mais dejetos do que a
cidade de Los Angeles. Com a proliferação dessas superfazendas em áreas
populosas, o lixo que produzem está contaminando a água potável.
Em recantos menos
desenvolvidos, da Indonésia à Amazônia, a floresta tropical está sendo queimada
para servir de área de pasto. A crescente demanda de carne é o motor para a
expansão da agricultura que, por sua vez, é a primeira causa do
desflorestamento mundial.O que provou ser um ônus insustentável para a vida no
planeta, mostrou-se também um fardo para o ser humano. Na China, a recente
tendência de consumo massivo de carne resultou em uma maior incidência de casos
de obesidade, doenças do coração, câncer de mama e de cólon.
Pesquisadores
americanos e da Organização Mundial da Saúde divulgaram achados semelhantes em
outras partes do mundo. Não estou anunciando o fim do consumo de carne. Animais
continuarão a ser criados para quem puder pagar por sua carne, enquanto outras
pessoas se contentarão em prová-la apenas em ocasiões especiais. Mas sua
produção em larga escala - e o alto preço que impõe ao meio ambiente - deveria
acabar antes do fim do próximo século.
Ed Ayres é o
diretor editorial do Instituto Worldwatch e autor de God's Last Offer:
Negotiating for a Sustainable Future