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O líder do
Worldwatch Institute, a respeitada organização que faz o
check-up anual do planeta, afirma que ainda é possível evitar
o colapso ecológico
Lester Brown nasceu em uma família de baixa renda
e durante sua juventude sequer sonhou com a vida que leva
hoje, à frente do Worldwatch Institute – uma das mais
respeitadas organizações ambientalistas do planeta. “Quando
era jovem, eu só queria ter sucesso e riqueza.” Em 1956,
depois de viver em vilarejos da Índia, Brown começou a se
preocupar com questões como a da fome mundial, o crescimento
da população e, mais tarde, com os desafios
ambientais.
Desde 1984, todo ano o
Worldwatch publica um livro, Estado do Mundo, que pode ser
explicado como um raio X do que está acontecendo no planeta,
com foco no meio ambiente, mas abordando questões sociais,
políticas e econômicas. Hoje, aos 67 anos, entre estudos cada
vez mais sofisticados e inúmeros compromissos internacionais,
ele vive num pequeno apartamento em Washington D.C., a 20
minutos de agradável caminhada de seu escritório. “Tenho uma
bicicleta, mas prefiro ir a pé.”
Como vai o
planeta? Nos nossos relatórios
anuais sobre o estado do mundo, que realizamos desde 1984,
fazemos um exame clínico da Terra, checamos seus sinais
vitais, como num check-up médico. E descobrimos que, a cada
ano, os sinais vitais da Terra se deterioram. Estão se
acentuando tendências como desmatamento, erosão do solo,
aumento de temperatura, gelo derretendo, tempestades
tornando-se mais destrutivas e espécies desaparecendo. De
alguma forma temos de mudar essas tendências.
Onde
está a saída? Neste momento a economia global
encontra-se numa cilada ambiental, está num caminho que não é
ambientalmente sustentável. Temos, portanto, de reestruturar a
economia para colocá-la no rumo certo. Isso já aconteceu com
civilizações antigas. Elas passaram por uma situação econômica
ambientalmente não sustentável, por causa do desmatamento, da
salinização do sistema de irrigação, da erosão do solo, e não
conseguiram fazer os ajustes econômicos necessários. Como
sabemos, decaíram e entraram em colapso. Precisamos garantir
que isso não vá acontecer conosco.
Temos motivos
para acreditar que isso é possível? Acho que sim.
Estamos exatamente diante da oportunidade de construir um
mundo em que possamos satisfazer nossas necessidades e nos
realizar. Para fazer isso temos, claro, de construir uma
economia economicamente sustentável. Mas o mais animador é que
já podemos vislumbrar como será essa economia. E sabemos o que
falta para chegar lá. A chave é reestruturar o sistema
tributário, para que o mercado enfrente o verdadeiro custo das
atividades econômicas. Porque uma das dificuldades atuais da
nossa economia é que o mercado esconde a verdade sobre os
preços. Por exemplo, se você compra 1 litro de gasolina, você
paga o custo do transporte do combustível, da produção, mas
não paga pelo impacto que a queima da gasolina terá no meio
ambiente, ou o custo do tratamento das doenças causadas pela
poluição. Se pudermos reestruturar o sistema tributário de
forma que isso represente um ônus para o mercado, veremos a
economia evoluir no caminho da sustentabilidade
ambiental.
Que outros grandes desafios temos pela
frente? Estabilizar o clima e o crescimento
populacional. Se tivermos sucesso nesses dois pontos, muitos
dos outros problemas serão amenizados. Se fracassarmos em
qualquer um dos dois, provavelmente nenhum ecossistema do
mundo estará a salvo. São dois grandes desafios, pois
estabilizar o clima significa reestruturar o sistema
energético, e estabilizar a população significa fazer uma
revolução no comportamento reprodutivo dos países em
desenvolvimento.
Como podemos estabilizar o
clima? Indo além da economia baseada em combustíveis
fósseis, investindo em energias renováveis. Nessa lista estão
a energia eólica, a solar, a geotérmica e a biomassa. Mas
acreditamos que a grande alternativa seja mesmo a eólica, a
energia dos ventos. Se conseguirmos obter energia barata do
vento, poderemos eletrolizar a água para produzir hidrogênio,
o combustível do futuro.
Que passos estão sendo
dados nesse sentido? O crescimento do uso da energia
eólica é encorajador, eu diria até mesmo excitante. Na década
de 1990, enquanto o uso do carvão diminuía 0,5% ao ano, a
energia eólica crescia 24%. Alguns países, como a Dinamarca,
obtêm do vento 12% da energia de que necessitam. Na Espanha, a
província industrial de Navarra consegue 24%. Nos Estados
Unidos, há grandes fazendas de energia eólica em Minnesota,
Iowa, Texas, Colorado, Wyoming e Oregon. O Departamento de
Energia americano concluiu que os Estados beneficiados com
mais ventos – como Dakota do Norte, Kansas e Texas – têm
potencial suficiente para satisfazer as necessidades
energéticas de todo o país. Os fazendeiros agora estão
percebendo que detêm o direito sobre a maior parte dos ventos
e, por isso, estão se juntando aos ambientalistas e fazendo
lobby para promover a energia eólica.
E quanto à
fumaça dos automóveis? Todas as grandes empresas
automobilísticas vêm trabalhando nas células de combustível de
hidrogênio. William Ford, chairman da Ford, diz que espera
comandar a aposentadoria do motor de combustão interna, que
será substituído pelo motor movido a célula de combustível. O
mais empolgante, tomando os Estados Unidos como exemplo, é que
os novos fazendeiros do vento poderão armazenar energia eólica
durante a noite, quando a demanda energética cai, e ligar os
geradores de hidrogênio. Estamos caminhando para o dia em que
os fazendeiros dos Estados Unidos vão suprir não apenas uma
boa parte das necessidades de eletricidade do país, mas também
o combustível para a frota de veículos movidos a células. Ou
seja, com a tecnologia já existente podemos vislumbrar como
será a economia sustentável em termos energéticos.
O que mais podemos esperar quanto a novas
tecnologias? As tais plataformas solares no espaço, por
exemplo, que gerariam energia solar e a transmitiriam para a
Terra por meio de feixes de laser, não parecem uma boa idéia
em termos de relação custo/benefício. Os avanços tecnológicos,
que devem desempenhar um papel fundamental nos próximos anos,
virão com novos desenhos para turbinas de vento, com o
desenvolvimento das células de combustível para substituir o
motor de combustão interna e com o material de captação solar
para ser usado no teto e nas paredes dos prédios – o que
transformará as próprias construções em usinas de energia.
Qual o papel do Brasil? Talvez a coisa mais
importante que o Brasil possa fazer seja desenvolver suas
fontes naturais de energia renovável. O país adquiriu bastante
conhecimento em energia hidrelétrica e álcool, duas fontes de
energia renovável, e é líder mundial na produção de etanol.
Mas não desenvolveu a energia eólica e fez muito pouco em
termos de energia solar. Veja bem, o Brasil tem muitos
recursos, muita energia solar nas regiões Sul e Nordeste,
ventos de sobra na linha costeira e, provavelmente, bastante
vento nos cerrados. Bem, se está claro que o vento será a base
das novas energias, o Brasil e o mundo só têm a ganhar com
isso.
E quanto à nossa biodiversidade? O
Brasil possui uma riqueza extraordinária em biodiversidade, de
fato a maior de todo o mundo. Acho que poucos brasileiros se
dão conta do valor dessa diversidade genética. Trata-se de uma
enorme biblioteca, que não existe em nenhum outro lugar. No
futuro, quando o material genético adquirir grande valor, a
conservação da diversidade biológica renderá muitos
dividendos. Observar a Amazônia desaparecer nas chamas me
lembra um pouco o incêndio da biblioteca de Alexandria, há
mais de 2 000 anos. Era uma das maiores bibliotecas do mundo
e, quando os invasores chegaram, decidiram queimar tudo. Por
quê? Porque acreditavam que ela não tinha nenhum
valor.
O que cada um pode fazer para ajudar a
melhorar o mundo? O mais importante é tornar-se
permanentemente ativo em favor do meio ambiente. Isso quer
dizer envolver-se em campanhas políticas e apoiar os
candidatos que trabalham em favor do meio ambiente, em todos
os níveis, desde as comunidades locais até o nível federal. Se
não mudarmos o sistema energético, não seremos capazes de
realizar as mudanças necessárias enquanto indivíduos. Podemos
tomar muito cuidado para desligar o interruptor ao deixar uma
sala, mas se a energia vier de uma usina de carvão, não
importa o quanto se economize, pois estaremos contribuindo
para a desestabilização do clima na Terra. Portanto, temos,
antes de mais nada, de mudar o sistema que provê a energia. O
passo seguinte é mudar nosso estilo de vida, aí sim, reduzindo
o uso de energia, reciclando os materiais como papel, vidro,
plástico etc., e apoiando programas de reciclagem nas nossas
comunidades. É o que podemos e devemos fazer individualmente
para tornar mais leves nossas pisadas na Terra.
WWI-Worldwatch Institute no Brasil www.wwiuma.org.br
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