WWI
Worldwatch Institute
www.wwiuma.org.br


As florestas da Bahia, estão
entre as mais diversificadas do mundo.
O atual estado de
fragmentação, todavia, ameaça a sobrevivência futura.
O chocolate poderá
ajudar a resgatá-las.
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por Chris Bright |
M
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eu primeiro contato com a
vassoura de bruxa foi numa grande fazenda na Bahia, o estado brasileiro do
chocolate. É na Bahia que cerca de 85 porcento do cacau brasileiro é cultivado.
Essa fazenda é uma entre as várias que pertencem à família dos meus anfitriões,
Luciana e Eduardo Athayde. Com Eduardo na direção de um carro alugado,
sacudíamos ao longo de uma sulcada estrada de barro, ladeada por uma mata verde
e úmida. Densas roças de cacau ocupavam os espaços sob uma floresta tropical
alta e dispersa. Os cacaueiros pareciam arbustos brotando dentro de uma
catedral em ruínas. Olhando para a abóbada, podia-se viajar centenas de anos ao
passado. Seguindo com o olhar tronco acima. até uma ilha de folhagem tão alta
que chega a doer o pescoço, e lá está: um fragmento da antiga e despedaçada
copa, cheia de epífitos – plantas arbóreas que parecem cristas gigantes de
abacaxi – cipós pendentes e quem sabe o que mais.
Mas a bruxa estava no cacaueiro e não na copa. Procurei nas árvores
pequenas pela marca – a vassoura – e fui logo premiado. “Ali!” Eduardo parou o
veículo para que eu pudesse penetrar na mata e inspecionar uma árvore doente.
Não parecia tão ruim assim. Grupos tenros de ramos brotavam de vários galhos,
murchavam e ficavam marrons. As vassouras pareciam ter crescido muito rápido,
como ocorre com mudas excessivamente adubadas. E então morriam. É só. A bruxa
pode matar, ou não, a árvore inteira. Mas, seja como for, a árvore não é mais
comercialmente produtiva – e o que é pior, pode se transformar numa fábrica de
contaminação.
A vassoura é o fungo Crinipellis
perniciosa: uma “doença nativa” do cacau que vive entre os cacaueiros
silvestres das porções norte e oeste da bacia amazônica. Contrariamente à
Bahia, aquela região faz parte da região original da árvore. Em suas florestas
nativas, o cacaueiro não se amontoa; cresce em porções dispersas, aqui e ali. E
as plantas silvestres são muito variadas em suas características genéticas,
inclusive na susceptibilidade ao fungo. Assim, um esporo do fungo flutuando no
ar úmido e parado da Amazônia tem poucas chances de pousar num hospedeiro
susceptível.
Mas as plantações de cacau da Bahia são tão densas que as árvores
freqüentemente se tocam umas nas outras, cobrindo milhares de hectares da
região. Assim, um esporo do fungo flutuando no ar de uma plantação baiana
facilmente encontra tecidos susceptíveis – um broto ou pequeno fruto em
qualquer um dos milhões de árvores geneticamente vulneráveis. Se o fungo
colonizar um fruto, as amêndoas ficarão afetadas. Se colonizar um broto, cerca
de seis semanas depois o tecido infectado gerará uma vassoura, um tipo de
câncer que retira a energia de crescimento da árvore. A própria vassoura
morrerá, e então surgirão estruturas rosas em forma de flores, chamadas
basidiocarpos. Cada basidiocarpo libera até 90 milhões de novos esporos do
fungo.
Há muito se conhece o potencial destrutivo do fungo no denso
ambiente de uma plantação, motivo pelo qual a Bahia mantém, há muitos anos, uma
quarentena para o movimento do cacau da Amazônia. E a quarentena funcionou até
maio de 1989, quando o fungo foi descoberto numa fazenda de cacau da Bahia.
Como chegou é uma questão ainda objeto de muita especulação, mas esse surto
inicial foi suprimido quando a
plantação de 200 hectares foi pulverizada com fungicida e queimada por técnicos
da CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) principal órgão de
pesquisa de cacau do Brasil. Todavia, no final daquele ano, descobriu-se uma
infestação muito mais extensa em outra fazenda, onde os trabalhadores tinham
aparentemente cortado algumas árvores infectadas, jogando-as em rios vizinhos.
Daquele momento em diante, qualquer esperança de se evitar uma epidemia estava
perdida. O fungo havia se estendido para fora da Amazônia. Devoraria a
prosperidade da Bahia, tornando-se uma versão vegetal da Morte Negra.
A estrutura cacaueira baiana, onde se investiu tanto, está hoje
partida. Na esteira da invasão fúngica, a colheita despencou do seu pico de
quase 400.000 toneladas, no final dos anos 80, para 105.000 toneladas, hoje. A
economia local seguiu a colheita. O valor de exportação de alguns daqueles anos
de pico atingiu US$ 900 milhões. Mas em 1999, as exportações de cacau em todo o
Brasil, conforme a Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas
(FAO), chegaram a apenas US$ 4,9 milhões (ambos os valores são em dólares de
2000). De acordo com a CEPLAC, cerca de 90.000 trabalhadores rurais perderam
seus empregos. A área de produção também encolheu, de aproximadamente 600.000
hectares para, talvez, 450.000 hectares, hoje.
Mas nada disto afetou o mercado internacional do cacau. E é fácil
saber por que, se olharmos os gráficos a partir da página 22, que demonstram
vários aspectos desse mercado. O cacau
hoje é cultivado por toda a região tropical – é uma lavoura com uma oferta cada
vez maior. A produção se expande e a tendência geral dos preços é para baixo. O
Brasil atualmente produz apenas 4 porcento do cacau mundial contra 24 porcento
em 1983. Na África, a Costa do Marfim, que já representa 42 porcento da produção
global, continua a incrementar sua produção através de um sistema de
mão-de-obra que, segundo consta, inclui a escravidão infantil, embora não se
saiba em que extensão. (Uma futura edição de World
Watch incluirá atualidades sobre o cacau africano.) No Sudeste da Ásia,
o Vietnã e a Malásia estão considerando plantações em massa dos mais novos e
produtivos clones de cacau. Mesmo que a vassoura de bruxa fosse erradicada
amanhã, a competição intensa e os preços baixos dariam pouco alento aos
cacauicultores baianos.
Assim, a vassoura de bruxa é apenas a causa imediata das
dificuldades da Bahia. Talvez haja uma disfunção sistêmica por trás da doença.
Afinal, o fungo deve seu poder infeccioso feroz à monocultura intensiva e, na Bahia, este sistema parece já ter
chegado ao limite do que a economia local pode suportar. Algo terá que mudar.
Os cacauicultores baianos terão que tomar algumas decisões.
E essas decisões terão uma importância biológica de proporções
globais. Aquelas imensas árvores que dominam o cacau na fazenda de Eduardo,
como nos milhares de outras fazendas da Bahia, são parte da Mata Atlântica, um
dos biomas mais biologicamente diversificados da Terra – e um dos mais
ameaçados. Restam menos de 8 porcento da floresta original. Por causa de sua
riqueza e raridade, a Mata Atlântica é considerada como um “hotspot” da
biodiversidade – uma área de alta prioridade para a conservação global. (Para
uma visão geral do bioma da Mata Atlântica, vide “A Recuperação de um
‘Hotspot,” na página 8.)
Na Bahia, que está na porção norte do bioma, a floresta foi
freqüentemente desbastada para que o cacau pudesse ser plantado à sombra das
árvores. Cerca de 50 a 60 porcento do cacau baiano é cultivado nesse sistema
agroflorestal, conhecido como cabruca. Esse sistema assemelha-se ao habitat
nativo do cacau, embora permita mais luminosidade para estimular a produção.
Mas não foi a ecologia nativa do cacau que motivou os agricultores a estenderem
tanto a cabruca dentro do remanescente da floresta. Reagiam a duas lições da
sua própria experiência: (1) o cacau se dá bem nesse sistema, e (2) derrubar
árvores imensas dá trabalho. Portanto, onde o objetivo era produzir cacau ao
invés de madeira, cortaram o mínimo possível. Desta forma surgiu a cabruca, um
sistema de facto de conservação e o
motivo pelo qual ainda existe floresta em locais como a fazenda de Eduardo.
Poder-se-ia dizer que o destino dessas árvores gigantescas está hoje ligado ao das pequenas árvores que abrigam.
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Cronologia
do Cacau: Momentos Críticos da Relação entre Theobroma cacau e Homo
sapiens |
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cerca de 1000
a.c.: O nome mais
antigo da árvore “kakawa” é utilizado pelos Olmec, povo do litoral do Golfo
do México que construiu a 1a das grandes civilizações
mesoamericanas. Provavelmente cultivavam a árvore. 400 a.c.-100 d.c.: Os Maya do norte da Guatemala adotam o nome “cacao” dos
Olmec. Presumivelmente também foi cultivado pelos Maya. 450-500: Surgem vasos
de cerâmica para chocolate entre os objetos nos túmulos da nobreza Maya – forte
evidência que o consumo do chocolate é um importante símbolo de status. (Os
Maya bebiam seu chocolate como um líquido espumoso, quase sempre temperado
com pimenta e outros condimentos). cerca de 900:
Quando caiu a civilização Maya e
surgiu a nação Toltec, as amêndoas do cacau já figuravam entre as principais
commodities Mesoamericanas. O controle das principais regiões produtoras de
cacau se torna o objetivo principal das guerras intermitentes que mancham os
vários séculos seguintes. cerca de
1500: O império Asteca, fundado no final do Século XIV onde é hoje
a Cidade do México, anexa a mais rica região de cacau da Mesoamérica:
Xoconochco (ao longo do litoral do Pacífico de Chiapas, México e da
Guatemala) 1521: Tenochtitlan,
a capital Asteca, é tomada por Hernan Cortes. Os conquistadores descobrem que
a baga do cacau é utilizada por toda a Mesoamérica como moeda – uma prática
provavelmente centenária. 1544: Uma
delegação dos Kekchi Maya, da Guatemala, visita a corte espanhola do Príncipe
Felipe (mais tarde Felipe II). Entre os presentes estão recipientes com o
chocolate líquido – a primeira aparição do cacau registrada no Velho Mundo. 1560: Primeira
introdução conhecida do cacau na Ásia: foi levado de Caracas, Venezuela,
para Sulawesi, Indonésia. 1585: Primeiro
embarque oficial de cacau em bagas chega a Sevilha. 1590: Esta deve ter
sido a data em que os espanhóis introduziram o cacau na África, ao trazer uma
árvore a Fernando Pó (hoje Bioko), uma ilha no litoral dos Camarões. Segundo outros
relatos, a primeira introdução do cacau na África só veio a ocorrer em 1822,
quando a árvore havia se firmado na Ilha de Príncipe, ao sul de Bioko. 1600-1650: O chocolate se torna a bebida favorita na
corte espanhola. cerca de
1600: Segundo consta, foi nesta ocasião que os espanhóis trouxeram
o cacau para as Filipinas, colônia espanhola desde 1543. (Outros relatos
sugerem que o cacau só chegou em 1663.) 1657: A primeira
casa de chocolate é inaugurada em Londres. 1659: Na França,
David Chalious recebe a concessão real para produzir chocolate, quecomeça a
adquirir uma mística, sendo atribuída a ele propriedades medicinais. 1668: Florença, na
Itália, tem pelo menos uma casa de chocolate; a bebida se popularizou entre
os florentinos mais abastados. cerca de 1680: Os
franceses dão início a grande produção de cacau na ilha de Martinica, no
Caribe. 1700-1720: Em Londres, as casas de chocolate suplantam
os cafés e tavernas como centros de lazer, negócios e debates políticos. 1727: Uma praga
severa devasta as plantações da variedade de cacau crioulo, nativo do sul da América Central, em Trinidad. Em torno
de 1750, foi realizado o replantio com o forasteiro,
no norte da América do Sul. A hibridização do forasteiro importado com os crioulos
sobreviventes da praga, gerou a única outra grande variedade de cacau: o trinitário. 1746: As tentativas
da França para quebrar o domínio espanhol à produção traz o cacau para o
estado da Bahia, no Brasil (bem mais ao sul da área nativa brasileira). O
transplante, embora demorado, foi um tremendo sucesso. No final do Século
XIX, a Bahia já é um grande produtor mundial. 1765: Começa a
produção de chocolate na América do Norte, com a implantação de uma unidade
de moagem em Massachusetts. 1778: Os holandeses levam o cacau das Filipinas
para Jacarta, Sumatra, que logo geram uma grande produção nas Índias
Orientais Holandesas (hojeIndonésia e Malásia). 1828: O químico
holandês, Conrad van Hooten, patenteia uma técnica para a prensagem da maior
parte da gordura da amêndoa torrada e moída, melhorando a digestibilidade do
pó. A adição de sais alcalina facilita a mixagem com a água. Este “cacau
holandês” permite a produçãoem massa de chocolate barato. 1847: A fábrica
inglesa J.S. Fry & Sons usa o pó de cacau para criar a primeira barra de
chocolate bem-sucedida. 1850-1860: No
arquipélago da Indonésia surge a broca, uma traça cuja larva infesta o fruto.
Plantações são arruinadas e a produção penetra ainda mais para dentro de
florestas intactas. A broca continua sendo a praga mais danosa para o cacau. 1853: A empresa familiar Cadbury, inicialmente
casa de chá e café em Birmingham, se torna fornecedora de chocolate à Rainha
Vitória. A Cadbury-Schweppes já é uma das maiores chocolateiras mundiais. 1879: Ocorre a
primeira introdução efetiva do cacau no continente africano, quando a árvore
chega de Fernando Pó (hoje Bioko) à Costa do Ouro (hoje Gana). 1879: Na Suíça,
o químico Henri Nestlé e o fabricante de chocolate Daniel Peter, encontram
uma forma de misturar o chocolate ao leite – um objetivo que havia frustrado
aficionados do chocolate durante séculos. Para superar a incompatibilidade
entre as duas substâncias, utilizaram uma forma de chocolate com baixo teor
de gordura (pó de cacau) e uma forma de leite com baixo teor de água (leite
condensado – uma invenção anterior da Nestlé). A mistura é então enriquecida
com a adição de manteiga de cacau e sólidos de cacau. O chocolate ao leite é
sucesso imediato de vendas. 1879: O frabricante suíço Rudolphe Lindt inventa
a “conch,” uma máquina moedora à pedra. Por produzir um chocolate mais fino e
suave, este sistema é logo adotado como processo industrial padrão. 1894: Milton
Hershey, já proprietário de um negócio de doces, funda a Hershey Cholocate
Company, na Pensilvânica. Como a Cadbury-Schweppes e Nestlé, Hershey é hoje
um dos maiores fabricantes do mundo. 1905: O cacau chega
à Costa do Marfim, hoje o maior produtor mundial de cacau. 1911: A produção de
cacau em Gana se aproxima de 40.000 toneladas – na ocasião, uma safra mundial
recorde. O cacaueiro, uma árvore do Novo Mundo, se transforma na principal
lavoura do Velho Mundo. Atualmente, cerca de dois terços da produção mundial
do cacau originam-se na África. 1917: Surgem as
primeiras notícias de um fungo virulento (podridão parda) no Equador. Restrito
ao norte da América do Sul e sul da Central, pode causar o colapso total da
produção cerca de 1920: Em
Minnesota, Frank Mars funda a Mars-O-Bar Company, precursora da Mars, Inc.,
outra entre as maiores fabricantes mundiais de chocolate. 1936: Surge em Gana
o vírus “Swollen Shoot,” disseminando-se por toda a região produtora durante
as duas décadas seguintes. É a praga mais grave do cacau africano. 1987: Food-Tek,
empresa químicaalimentícia de Nova Jersey, patenteia uma estrutura molecular
alterada da manteiga de cacau. Sua invenção é o primeiro chocolate
(razoavelmente) comestível, resistente ao calor. Invenção semelhante no ano
seguinte pelo Batelle Memorial Research Institute, da Suíça, atrai grandes
investimentos do setor. A resistência ao calor é amplamente considerada como
a chave para incrementar o consumo nos trópicos e regiões temperadas. 1989: A vassoura
de bruxa, praga fúngica nativa da Amazônia, é identificada na Bahia, o maior
estado produtor do Brasil. Durante a década seguinte, a produção brasileira
cai a um quarto do seu nível. A vassoura está, no momento, restrita ao norte
da América do Sul e Panamá. 2000: Em outubro,
um documentário da TV britânica inflama um debate sobre escravidão infantil
nas plantações da Costa do Marfim. Conforme o programa, “40% do chocolate que
consumimos pode estar contaminado pela escravidão.” Autoridades daquele país
rejeitam a acusação; a indústria promete investigar. (A escravidão foi importante para o
desenvolvimento das plantações tanto no Velho quanto no Novo Mundo.) |

O chocolate
nativo da
Mesoamérica
era consumido
líquido com um
grosso cola-
rinho de
espuma, a parte
mais
valorizada da bebida.
Esta aquarela,
de um livro do
Século XVI
conhecido como
Codex Tudela, mostra
uma
nobre Asteca
formando
espuma ao
derramar o choco-
late de um
vaso para outro.
Embora a
imagem esteja
“europeizada,”
os especialis-
tas a
consideram uma repre-
sentação
autêntica da vida
Asteca, no
período da com-
quista. A
Codex Tudela está
no acervo do
Museu de
América, em
Madri.
Reproduzido com permissão.
O paladar de US$ 60 bilhões
O fruto do cacaueiro
tem uma casca grossa com cerca de 20 centímetros de comprimento. Mas varia muito
de tamanho e em muitos outros traços, a depender do tipo de cacau cultivado. Às
vezes é comprido e estreito, semelhante a uma pequena bola de futebol americano
um pouco murcha, com sulcos largos e
longitudinais. Às vezes parece um pequeno melão verrugoso e atarracado. Às
vezes é verde; às vezes, uma mistura de verde, amarelo e vermelho. Os frutos
crescem diretamente do tronco e dos principais galhos da árvore, ao invés da
área periférica, como na maioria das árvores frutíferas. Esta característica pode
parecer estranha quando se vê pela primeira vez. Uma árvore em plena produção
parece que está sendo atacada por um enxame de cabaças parasíticas.
Dentro do fruto há uma
espiral cilíndrica, compacta, formada por 20 a 40 bagas brancas ou
branco-avermelhado, num arranjo que parece um pouco uma espiga de milho, com
grãos gigantes e quase nenhum sabugo. As bagas estão envolvidas em uma polpa
branca e doce. Na América do Sul, os povos nativos às vezes recolhem as bagas
do fruto, chupam a polpa e as cospem fora. As bagas cruas do cacau são amargas;
e nem de longe sugerem o potencial de produzir um dos sabores mais inebriantes
do mundo.
Antes das pessoas
levarem árvore para outros lugares, sua região provavelmente se estendia do
alto Amazonas até a América Central, talvez até Chiapas, o estado mais ao sul
do México. Na parte sul-americana, os povos indígenas aparentemente nunca
descobriram a alquimia simples que transforma as amêndoas em chocolate. Mas, ao
longo do litoral do Golfo, no sul do México, o povo Olmec provavelmente
cultivava a árvore – e talvez até produzisse chocolate – possivelmente desde
1000 A.C. O cacau era tão importante entre as culturas mesoamericanas
posteriores – Maya, Toltec, Asteca – que as bagas circulavam como moeda por
toda a região. O consumo do chocolate – que, pelo menos entre os astecas,
parece ter sido prerrogativa dos ricos – era, literalmente, uma forma de comer
dinheiro.
Os povos
Mesoamericanos nativos consumiam o chocolate em sua forma líquida. As bagas
eram fermentadas ligeiramente, secas, torradas e moídas num metate de pedra.
O pó resultante era condimentado com várias substâncias – pimenta vermelha era
a preferida – e misturado à água. Segurando um vaso com este líquido à altura
do peito e derramando cuidadosamente em outro, no chão, um preparador hábil
poderia formar uma espuma grossa, a parte mais valorizada da bebida. (A espuma
era produzida pela gordura no cacau – a “manteiga de cacau” – e às vezes também
com aditivos espumantes especiais.) Os povos Mesoamericanos tinham,
aparentemente, um repertório substancial de bebidas e mingaus com chocolate.
Sabemos disto pelos escritos do notório Diego de Landa, o Bispo de Iucatã,
responsável, no Século XVI, pela chacina de centenas de Mayas; Landa gostava do
sabor de várias sopas Mayas de chocolate e farelo de milho.
No início do século
XVII, o chocolate chegou ao Velho Mundo e se tornou um refresco favorito na
corte espanhola. Ao longo do século, disseminou-se de uma elite européia para
outra, democratizando-se um pouco no processo –o bastante para ser usufruído
pelas classes comerciais no final do século. Cerca de cem anos após, sua
popularidade em Londres era tal que as casas de chocolate chegaram a suplantar
os famosos cafés da cidade. (Da mesma forma que no Novo Mundo, todo chocolate
europeu daquela época era consumido como bebida; o chocolate sólido de
qualidade razoável só apareceu em 1847.) Os europeus descartaram a maior parte
dos aditivos mesoamericanos, embora freqüentemente mantivessem a baunilha,
preparada da vagem de uma orquídea da América Central. Mas substituíram muitos
condimentos. Uma receita sofisticada exigia âmbar-gris, uma substância
almiscarada proveniente dos intestinos da baleia cachalote, às vezes levada às
praias tropicais pelo mar. Um preparo mais comum poderia incluir cravo ou
canela, porém a mais duradoura adição européia foi o açúcar. O chocolate da
Mesoamérica aparentemente não era adocicado. (Estes detalhes foram extraídos da
fascinante história culinária do chocolate, The True History of Chocolate, por
Sophie e Michael Coe.)
Exceto pela mudança
nos temperos, o antigo chocolate europeu era preparado, essencialmente, da
mesma forma que os Mayas e Astecas o preparavam. Mesmo hoje, o antigo
procedimento mesoamericano ainda é seguido pelo setor industrial: as bagas
ainda são fermentadas levemente, torradas e moídas. Mas aí entra em cena um
conjunto de técnicas mais complexas. O pó pode ser tratado com carbonato de
potássio ou sódio para facilitar sua diluição na água, desengordurado
(removendo grande parte da manteiga de cacau) ou liquidificado em tanques
especiais de pedra, ou combinado com leite, em barras.
Todavia, apesar da
tecnologia cada vez mais sofisticada, direcionada à baga do cacau, o paladar do
chocolate propriamente dito continua quimicamente indefinível. Em seu livro, The Emperors of Chocolate, Joël
Glenn Brenner descreve o estado da pesquisa atual no sabor do chocolate:
aparentemente, o sabor é uma sensação composta criada por cerca de 1.200
substâncias diferentes, nenhuma das quais domina claramente as outras. O sabor
de algumas dessas substâncias, é simplesmente horrível; Brenner menciona uma
que tem o sabor de peixe podre. A complexidade química da baga é uma das razões
por que não se encontram barras de chocolate artificial no mercado local. (A
alfarroba, uma fruta tropical às vezes vendida como substituta do chocolate,
pode ser considerada como um alimento perfeitamente autêntico, por si só.)
O chocolate tem outra
qualidade que pode dificultar sua imitação: o comportamento de sua gordura. A
manteiga de cacau tem um ponto de fusão um pouco mais baixo do que a
temperatura do corpo humano. Quando se come um pedaço de chocolate, a manteiga
de cacau derrete na boca, liberando todo o complexo do sabor. O próprio
derretimento cria aquela sensação “aveludada” na boca, característica do
chocolate. Uma vez que a manteiga de cacau não é prontamente absorvida pelo
corpo humano, não é uma gordura propensa a engordar quem a come.
Mas, embora a
substituição não seja provável, a adulteração é comum. O cacau é um ingrediente
relativamente caro – isto é, relativo ao açúcar ou óleo vegetal. Assim, não
causa surpresa que a indústria convencional favoreça esses ingredientes, em
detrimento do cacau. E, realmente, não há muito chocolate em muitos
“chocolates” no varejo. A manteiga de cacau é freqüentemente substituída por
gorduras mais baratas, como a lecitina ou o óleo de palma, que também são de
mais fácil manejo na manufatura de coberturas de chocolate. A proporção de
sólidos de cacau (o componente não-gorduroso da amêndoa moída) tende a ser
relativamente baixa, também. Numa barra normal de chocolate, por exemplo, esta
proporção pode ser de 20 porcento ou até 10 porcento se o doce é um produto
“com recheio.” O chocolate de alta qualidade, por outro lado, possui usualmente
50 porcento de sólidos de cacau, mas pode chegar até 70 porcento. E como contém muito menos açúcar e pouco, ou nenhum,
óleo vegetal, o chocolate de classe geralmente tem bem menos calorias do que o
produto padrão. Os aficionados do chocolate freqüentemente argumentam que o
chocolate acaba sendo culpado por problemas que são, na realidade, causados
pelo consumo excessivo de açúcar.
A indústria moderna de
chocolate atende a um mercado global superior a US$ 60 bilhões anuais. E desde
a baga até a barra de chocolate, o setor vem sendo cada vez mais dominado por
um número pequeno de grandes empresas – uma tendência típica dos alimentos
processados em geral. (Vide “Que Fim Levaram os Fazendeiros?” No. 5, 2000).
Dado à competitividade do negócio, as empresas tendem a manter suas
estatísticas em segredo, e dados abrangentes de participação de mercado são
difíceis de obter. Mas, conforme um artigo na edição de março/abril de 2000 da
revista Candy
Business, os dez maiores processadores de cacau, hoje, representam
67 porcento das moagens mundiais da baga; esta cifra deverá se elevar para 75
porcento até o final da década. A Candy Business informa que três processadores
intermediários (Barry Callebaut, ADM Cocoa e Blommer Chocolate) hoje controlam
cerca de 55 porcento do “chocolate industrial” do mercado (chocolate ainda a
ser processado como produto final). O varejo é dominado por seis
multinacionais: Hershey, Mars, Philip Morris (que controla
Kraft-Jacobs-Suchard-Côte d’Or), Nestlé, Cadbury-Schweppes e Ferrero; em 1998,
de acordo com a European Fair Trade Association, estas seis empresas
controlavam cerca de 80 porcento do mercado de varejo.
O Fruto da sombra
O chocolate teve sua
origem na floresta tropical, o tipo de ecossistema mais rico da Terra, em termos
de diversidade de espécies. Na longa lista de benefícios que as florestas
conferiram à humanidade, há um lugar para o chocolate – presumivelmente, bem
abaixo dos níveis de armazenagem de carbono ou estabilidade hidrológica, mas
está lá. Embora trivial, um presente prazeroso da floresta – contanto que se
considere que o benefício vem só em nossa direção. Mas o chocolate pode ser uma
questão de profunda importância se retribuirmos o presente consumindo-o de
forma que beneficie
as florestas.
Essas florestas,
certamente, precisam de toda a ajuda que possam obter. Estão se desfazendo
rapidamente, por causa principalmente, da extração de madeira e das queimadas
(para abrir espaço para pastos e lavouras). Os dados de desmatamento tropical
são vagos e conflitantes, mas é provável que a perda média anual exceda 130.000
quilômetros quadrados – uma área quase do

Costa do Marfim
Variação
da Produção entre os Dez Maiores
Países Produtores de Cacau, 1996 - 2000
Costa
do Marfim
Gana
Indonésia
Nigéria
As faixas indicam as variações de produção, de 1996 até
2000. As barras indicam a produção do ano 2000 (estes dados
são provisórios). Os números dão o valor das barras. Unidades em toneladas
métricas. Fontes: banco de dados FAOSTAT <apps.fao.org>,
e CEPLAC para Brasil em 2000
Brasil
Camarões
Malásia
Equador
Colômbia
Rep.
Dominicana
tamanho da Grécia. (Esta estimativa é da Análise Piloto dos
Ecossistemas Globais, ou projeto PAGE, do World Resources Institute, publicado no
ano passado.) E essa área representa apenas a que foi desmatada diretamente:
comunidades florestais vizinhas geralmente sofrem um grande impacto de danos
colaterais sob a forma de perda de habitat, seca, queima adicional, pressão da
caça e invasão de espécies não-nativas. Todavia, a extensão dessa degradação é
mais difícil ainda de quantificar do que o próprio desmatamento.
Apesar de toda a
atenção que este problema recebeu nas últimas décadas, ainda é muito incerto na
maioria dessas florestas se a conservação irá prevalecer de forma
significativa. Os estudos técnicos continuam a se empilhar, mas ainda há sérios
desacordos sobre a melhor estratégia de conservação a ser adotada. Sob um ponto
de vista puramente ecológico, a abordagem mais eficaz parece muito simples:
colocar as mais valiosas florestas remanescentes dentro de divisas de parques.
Entretanto, mesmo quando essas divisas são obedecidas – e freqüentemente não
são – as áreas cercadas geralmente não são suficientemente amplas para
sustentar toda a variedade de processos de ecossistemas, a longo prazo. A
alternativa padrão é “gestão florestal sustentável” (GFS), que tenta fazer com
que as florestas custeiem seu futuro, explorando-as de forma sustentável. Mas
esta abordagem também foi alvo de sérias críticas. Um estudo recente da
Conservation International argumenta que a GFS não é economicamente competitiva
com as práticas extrativas convencionais – e não é necessariamente menos
destrutiva também. Este último ponto pode estar descartado por definição, mas
se baseia no que está sendo definido como sustentável: uma produção moderada de
madeira pode ser sustentável mais ou menos indefinidamente, mas os cortes
talvez não sustentem a estrutura e composição original da floresta. (O estudo
da CI sugere que onde a extração seja inevitável, a melhor opção
conservacionista poderá ser permitir a extração convencional e então proteger a
área derrubada.)
À primeira vista, é
difícil perceber o potencial de conservação no cacaueiro, uma vez que, na
maioria dos locais onde é cultivado, seu relacionamento com a floresta
dificilmente tem sido benigno. Quase 7 milhões de hectares (70.000 quilômetros
quadrados) estão hoje produzindo cacau – uma área do tamanho da Irlanda.
Praticamente ,toda essa área foi, outrora, floresta tropical e, em grande parte
dela, a floresta foi derrubada exclusivamente para o cultivo do cacau. Todavia,
o surgimento do cacau nem sempre causou a dissolução completa da floresta; as
condições de plantio variam muito. O cacau é, às vezes, cultivado em solo
aberto, à luz do sol, quando os cacaueiros novos estão estabelecidos. (Quanto
mais luz receber, mais produtiva será a árvore, pelo menos no curto prazo. Esta
é a vantagem do cultivo ao sol; a desvantagem é que deixa a árvore mais
vulnerável a estresse – secando, por exemplo– tornando

Costa do Marfim
Variação
da Tonelagem de Exportação entre os
Dez Maiores
Países Produtores de Cacau, 1995 - 99
Costa
do Marfim
Gana
Indonésia
Nigéria
Brasil
Camarões
As faixas indicam as variações de
tonelagem de exportação, de 1995 até 1999. As barras indicam a tonelagem de 1999. Os números dão o valor das barras.
Unidades em toneladas métricas. Fontes:
banco de dados FAOSTAT <apps.fao.org>.
Malásia
Equador
Colômbia
Rep. Dominicana
sua vida produtiva mais curta.) Em faceda adaptabilidade do cacaueiro
à sombra, normalmente ele é mantido sob uma cobertura arejada: uma floresta
nativa desbastada ou uma plantação arbórea.
Esta tolerância à sombra é um recurso promissor. O cacau é
uma lavoura, como a do café cultivado à sombra, que tem uma lógica econômica
para a preservação da cobertura florestal tropical, embora sob condições
modificadas. O cacau tem várias outras características que podem torná-lo um
aliado valioso das florestas. Em primeiro lugar, não pressiona o solo por causa
de seu grande descarte de folhas, cuja decomposição o beneficia e à sua demanda
relativamente baixa de nutrientes, pelo menos para níveis moderados de
produção. Em segundo lugar, é uma exclusividade da floresta tropical: em
virtude de suas exigências de temperatura e umidade, não pode ser cultivado
comercialmente fora de regiões de floresta tropical. Qualquer valor que o cacau
agrega a essas áreas, portanto, não poderá ser depreciado pela produção em
outro local. Finalmente, é uma lavoura de hotspot. Todas as principais regiões
produtoras de cacau são tão ricas em biodiversidade que se classificam como
hotspots: a Mata Atlântica brasileira, a Mesoamérica, as florestas da África
Ocidental, o arquipélago da Indonésia/Malásia e o Sudeste da Ásia. Se o cacau
puder ser transformado num instrumento de conservação, será um instrumento de
extrema importância estratégica.

Costa do Marfim
Variação
do Valor de Exportação entre os
dez maiores países
produtores de cacau, 1995 – 99
Gana
Indonésia
Nigéria
As faixas indicam as variações dos valores
de exportação, de 1995 até 1999. As barras indicam os valores de 1999. Os
números dão o valor das barras. Unidades em milhões de dólares de 2000. Fontes:
banco de dados FAOSTAT <apps.fao.org>. (Valores históricos em dólares
foram convertidos).
Brasil
Camarões
Malásia
Equador
Colômbia
Rep. Dominicana
Mas, claramente, o status-quo não realizará esta
transformação. O cacau “benéfico à floresta” se relacionaria com a paisagem de
forma muito diferente do padrão atual. De início, teria que englobar três
princípios que parecem estar se aglutinando num novo paradigma para a
silvicultura tropical. Em outras palavras, cada vez mais o cacau teria que ser:
Orgânico, ou seja,
cultivado sem fertilizantes artificiais ou pesticidas. A produção orgânica
evita o dano causado aos solos, corpos d’água e florestas por pesticidas e
fertilizantes sintéticos.
Ter reciprocidade comercial, ou seja,
negociado dentro de um sistema que garanta aos produtores um preço decente e
aos trabalhadores rurais um salário decente. Isto, naturalmente, é de suma
importância social mas também ecologicamente importante, pois poderá ajudar a
criar um suporte econômico amplo para os outros elementos deste paradigma.
E finalmente, cultivado à sombra de
florestas nativas, em regeneração. (Naturalmente, apenas florestas
que já sofreram alterações substanciais deverão ser utilizadas para o cultivo à
sombra; o cacau não deveria ser mais plantado em florestas intactas.) O sistema
de cabruca da Bahia já atende, em parte, esta necessidade´porém, contrariamente
à cabruca normal, um cacau realmente ecológico teria que permitir a regeneração
da cobertura – ou seja, ao invés do manejo da sombra apenas para o cacau,
deveria se permitir o desenvolvimento dos rebentos da floresta, para virem a
substituir as árvores de cobertura.
Existe um precedente
forte para o critério de sombreamento no sistema de cabruca, e a reciprocidade comercial é
essencialmente apenas um direito trabalhista justo. (Isto não o torna fácil de
ser obtido, mas pelo menos não é difícil de se entender.) O primeiro item, produção orgânica, é o mais
difícil. Muitos agricultores parecem ter dificuldade de acreditar que a
produção orgânica em larga escala seja possível, e é verdade que a transição
para o sistema orgânico pode ser dura. Geralmente leva vários anos para se
dominar a técnica do cultivo orgânico e criar a resistência do sistema às
pragas. A certificação orgânica, através de uma organização independente ou um
programa governamental, é a chave para obtenção do preço maior que os produtos
orgânicos geralmente alcançam, mas isto também leva tempo. Geralmente são
necessários três anos até que os solos possam ser certificados como livres de
resíduos de pesticidas.
Logo que a transição
esteja concluída, entretanto, o cultivo orgânico faz tanto sentido financeiro
quanto ecológico. Veja-se o programa de
cacau orgânico administrado pelo grupo ambiental da Bahia, IESB (Instituto de
Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia). Em agosto de 2001, o programa já
havia inscrito 75 fazendas, das quais 20 haviam concluído a transição trienal
para a certificação orgânica. Estas 75 fazendas cobrem cerca de 5.800 hectares,
a maioria em cabruca; as propriedades certificadas representam 834 hectares do
total. Um sistema separado de distribuição foi organizado para a colheita: é vendida
ao exterior através de uma cooperativa local, ao invés de grandes processadores
internacionais que adquirem o cacau convencional. Pragas como a vassoura de
bruxa tendem a ser um problema menor nos sistemas orgânicos, umavez que a
plantação é menos densa. Mas, como seria de se esperar, a safra também é menor.
O IESB calcula que o sistema orgânico produza 40 a 90 porcento da produção
convencional, sendo esta variação causada em grande parte por causa das
diferenças na fertilidade do solo. Isto pode parecer desencorajador até que se
analise com maior profundidade. Uma vez que os sistemas orgânicos não utilizam
agroquímicos caros, o custo de produção é muito menor e assim o lucro líquido
poderá aumentar, mesmo quando houver queda de produção. Em suas fazendas
certificadas, o IESB registra um aumento médio do lucro líquido de
aproximadamente 80 porcento.
O quadro internacional é uma versão ampliada do brasileiro.
Vários tipos de cacau orgânico cultivado à sombra, e com reciprocidade
comercial, estão sendo vendidos por pequenas empresas – “butiques de
chocolate.” (Muitas dessas empresas constam da página de links do website da
OIC, a Organização Internacional do Cacau, www.icco.org)
porém o volume de cacau produzido para esse mercado de nicho é uma parcela
mínima da safra mundial. Por exemplo, apenas cerca de 6.000 toneladas de cacau
orgânico são produzidas anualmente: isto é menos de dois maioria em cabruca; as
propriedades certificadas representam 834 hectares do total. Um sistema
separado de distribuição foi organizado para a colheita: é vendida ao exterior
através de uma cooperativa local, ao invés de grandes processadores
internacionais que adquirem o cacau convencional. Pragas como a vassoura de
bruxa tendem a ser um problema menor nos sistemas orgânicos, umavez que a
plantação é menos densa. Mas, como seria de se esperar, a safra também é menor.
O IESB calcula que o sistema orgânico produza 40 a 90 porcento da produção
convencional, sendo esta variação causada em grande parte por causa das
diferenças na fertilidade do solo. Isto pode parecer desencorajador até que se
analise com maior profundidade. Uma vez que os sistemas orgânicos não utilizam
agroquímicos caros, o custo de produção é muito menor e assim o lucro líquido
poderá aumentar, mesmo quando houver queda de produção. Em suas fazendas
certificadas, o IESB registra um aumento médio do lucro líquido de
aproximadamente 80 porcento.
O quadro internacional é uma versão ampliada do brasileiro.
Vários tipos de cacau orgânico cultivado à sombra, e com reciprocidade
comercial, estão sendo vendidos por pequenas empresas – “butiques de
chocolate.” (Muitas dessas empresas constam da página de links do website da
OIC, a Organização Internacional do Cacau, www.icco.org)
porém o volume de cacau produzido para esse mercado de nicho é uma parcela
mínima da safra mundial. Por exemplo, apenas cerca de 6.000 toneladas de cacau
orgânico são produzidas anualmente: isto é menos de dois décimos de 1% da
produção total do cacau. Entretanto, mesmo esta pequena produção comprova que o
cacau orgânico funciona.
Este novo paradigma é fundamental, mas apenas o começo, e
poderá vir a ser – em termos relativos – a parte mais fácil. O que, certamente, será a parte difícil é que
o verdadeiro cacau ecológico terá que ser uma força de continuidade florestal. Em seu
estado atual, a cabruca e outros fragmentos florestais da Bahia são, em geral,
muito pequenos para dar suporte genético viável às populações de muitas plantas e animais, a longo prazo.
Mesmo nos locais de regeneração, elas tenderão a perder espécies. Para impedir
isto, o manejo da cabruca terá que ser integrado a uma estratégia mais ampla,
que objetive unir os fragmentos uns aos outros, plantando corredores florestais
entre eles. Para que os corredores preservem tanto a diversidade de espécies
florestais quanto a diversidade genética das espécies arbóreas individuais,
terão que ser plantadas com mudas de fragmentos locais. Os fragmentos
existentes, em outras palavras, são os bancos de genes dos quais as futuras
florestas deverão evoluir.
Reinventando o cacau 
“A monocultura
pode ser uma forma muito bem-sucedida de cultivar lavouras,” declara Martin
Aitken, que dirigea unidade de pesquisa de
cacau da Mars, na Bahia. “Mas
quando fracassa, fracassa fragorosamente.”
Na Bahia, a monocultura fracassou o máximo que podia. Isto, combinado a
algumas outras condições, pode ter criado hoje uma rara oportunidade: a Bahia
pode ser o melhor lugar no mundo para lançar um esforço em larga escala para o
desenvolvimento de um cacau benéfico à floresta. A necessidade de mudança,
capacidade para mudar e um grande benefício ecológico para mudança – todos
estes elementos estão hoje presentes na Bahia
A necessidade
de mudança: A fim de superar a vassoura de bruxa, muitas roças de
cacau terão que ser substituídas por árvores mais resistentes. A CEPLAC lançou,
em 1997, sua primeira geração de cultivares resistentes de cacau, e até hoje,
35.000 a 50.000 hectares foram plantados. Essas árvores estão começando a
produzir e os resultados são encorajadores. Uma segunda geração de cultivares
da CEPLAC, até mais resistentes à vassoura, deverá ser disponibilizada em
breve. Todavia, o simples plantio de árvores resistentes não irá solucionar os
problemas da Bahia. Mesmo que a vassoura seja extirpada, a Bahia terá
dificuldade em competir com a África no mercado convencional do cacau. Vejamos
a imensa disparidade no custo da mão-de-obra: na Bahia, os trabalhadores rurais
recebem, em geral, o salário mínimo, que atualmente representa um pouco mais de
US$ 850 por ano. Na Costa do Marfim, disparadamente o maior produtor mundial de
cacau, os trabalhadores recebem em torno de US$ 165 anuais (quando são
remunerados). Isto é menos de um quinto do salário brasileiro. O plantio dos
cultivares resistentes aumentará ainda mais os custos de produção no Brasil,
pelo menos durante os próximos anos. (Custa cerca de US$ 1.500 para replantar 1
hectare de cacau.) Estes custos poderão vir a se reduzir caso um grande número
de fazendeiros adote a estratégia que a CEPLAC está recomendando: um manejo
não-orgânico, resistente à vassoura,
destinado a produzir 1.500 quilos de cacau por hectare por ano (contra cerca de
900 quilos por hectare nas plantações de maior produtividade da Costa do
Marfim). Mas, mesmo assim, é difícil perceber como esta estratégia de maior
produtividade atenderá aos interesses de longo prazo dos produtores, que já enfrentam
preços baixos por causa do excesso de cacau no mercado. A produção em grosso de
“cacau genérico” não parece ser a melhor opção para as condições baianas. Faria
mais sentido desenvolver produtos de maior valor, como chocolate “benéfico à
floresta,” e de maior demanda. Uma solução abrangente, em outras palavras, terá
que ser criada não apenas na fazenda, mas também nos mercados e na mídia que
influencia a demanda dos consumidores no exterior.
US$ por tonelada métrica Preço
médio diário, deflacionado
(base
2000)

Preço
médio diário (valor
histórico em dólar)



A
capacidade para mudar: A Bahia, provavelmente, dispõe da melhor
infra-estrutura agrônoma entre todas as regiões produtora de cacau no mundo. A
CEPLAC tem quase 40 anos de experiência de campo e pesquisa. Dispõe em seus
quadros de técnicos com grande conhecimento de área e cerca de 200 agentes de
extensão. O IESB já desenvolveu um programa comprovado de cacau orgânico.
CEPLAC, IESB, Mars Company e professores da Universidade Estadual de Santa Cruz
estão investigando sistemas agroflorestais policulturais, onde o cacau é o
componente principal. A policultura – o cultivo simultâneo de várias lavouras
na mesma área de terra – não precisa ser orgânica, mas agricultores orgânicos
freqüentemente utilizam a policultura para reduzir a vulnerabilidade a pragas
em qualquer cultura individual. A policultura fora da cabruca já está em
andamento; o cacau, às vezes, é plantado junto à banana, por exemplo, ou
borracha. Dentro da cabruca, a policultura é mais problemática por haver menor
luminosidade, mas poderá ser viável incluir várias outras culturas tolerantes à
sombra, como açaí [Euterpe oleracea] e piaçava [Attalea funifera], palmeiras produtoras de frutos
e fibras.
Além dos seus recursos
intelectuais, a Bahia dispõe de recursos genéticos imensos, uma vez que uma
porção substancial da esfera nativa do cacaueiro está dentro do território
brasileiro. Grande parte desta riqueza genética nativa ainda não foi
investigada por sua resistência a doenças, produção frutífera e outras
características úteis.
Fazendeiros baianos
também podem estar prontos para mudanças. Em geral, essas pessoas são – ou
foram – ricas, pelo menos em termos locais. Mas, a esta altura, muitos deles
estão endividados ou sem garantias suficientes para empréstimos adicionais.
Provavelmente, pode-se dizer que quase todos estão frustrados. Suportaram
antigas crises (criadas por quedas anteriores de preço) geralmente esperando-as
passar. Em grande parte, também adotaram esta abordagem agora, mas sabem que
além da vassoura de bruxa, a tendência geral dos preços não é promissora. A estratégia
passiva está se tornando cada vez menos atraente. Entretanto, a alternativa
radical – vender a fazenda – também não é uma opção agradável, visto que o
valor da terra despencou na esteira da crise. Alguns fazendeiros estão mudando
para outras lavouras, como palmito, café ou até mesmo a pecuária, às vezes
destruindo a cabruca para fazê-lo. Mas ainda há grande resistência para
abandonar a lavoura que já gerou tanta prosperidade. Em suma, os produtores de
cacau da Bahia formariam um grupo favorável à mudança: são relativamente
conservadores porém cultos, influentes e cada vez mais inquietos – e há poucos
deles. Um projeto que atraia substancialmente o interesse deles provavelmente
também atrairia a atenção do governo, especialmente se abordasse um problema
básico num âmbito bem maior: a necessidade de se fazer algo para o universo de
90.000 trabalhadores rurais desempregados.
Um grande benefício ecológica para mudança:
Na Bahia, a maior parte dos maiores fragmentos intactos da floresta se localiza
ao longo do litoral; a maior parte do cacau é cultivada mais para o interior
porém a cabruca e outros fragmentos na região cacaueira merecem ser
preservados. Mesmo não sendo primitiva, a cabruca representa uma grande porção
da floresta remanescente. No sul da Bahia, cerca da metade da cobertura
sobrevivente está na cabruca. E, pelo menos dentro de alguns contextos, a
cabruca reúne muito mais biodiversidade do que se presume. Um projeto de
pesquisa próximo à Reserva de Una, ao longo do litoral sul da Bahia, está
constatando níveis surpreendentes de diversidade em paisagens que incluem
cabruca, floresta intacta e pastagem. Muitos animais florestais aparentemente
utilizam a cabruca vizinha como uma espécie de suplemento ao seu habitat
principal. Numa noite, por exemplo, os pesquisadores em Una identificaram 23
espécies de morcegos em uma única cabruca. O mico – leão – dourado [Leontopithecus chrysomelas], um
primata ameaçado, também utiliza a cabruca desta forma. Em 1994, um novo membro
da família do joão-de-barro foi descoberto na cabruca: o “graveteiro” de perna
cor-de-rosa passa a maior parte do tempo na copa, de ponta-cabeça, caçando
insetos. Esta pequena ave foi rara o suficiente para merecer não apenas uma
nova espécie, mas uma nova classe. É classificada como Acrobatornis fonsecai, e uma
foto dela aparece na capa desta revista. Além do seu valor intrínseco, as
fazendas de cacau provavelmente também ajudaram a preservar florestas menos
perturbadas em outros locais, empregando pessoas que, de outra forma, poderiam
invadi-las em busca de terra cultivável. Todavia, o desemprego atual na região
cacaueira está certamente criando pressões adicionais à floresta sobrevivente.
|
Milhões de hectares Mundo
Nigéria Costa
do Marfim Brasil Gana
Camarões
Equador Rep.
Dominicana
Guiné Equatorial
Venezuela
Mexico |
|
Fonte:
banco da dados FAOSTAT, apps.,fao.org Área cultivada com Cacau: Mundo e Principais Países
Produtores |
A Bahia tem uma oportunidade para reinventar o cacau. Isto poderá ser realizado
sob a forma de uma produção em larga escala que favoreça a estabilidade
ecológica em níveis relativamente altos de diversidade, criando níveis
razoavelmente altos de emprego e produtos que liguem os consumidores em
sociedades distantes a estes objetivos. Eis três passos que, acredito,
deslanchariam um forte avanço inicial para a transformação.
1. Achar meios para a CEPLAC
adotar o novo paradigma agrícola.
O interesse da CEPLAC
pela economia local adquiriria um complemento ecológico eficaz caso lançasse um
grande programa de cacau orgânico. Não seria necessário abandonar seu apoio aos
sistemas de cultivo convencional, mas tão somente proporcionar também aos
fazendeiros acesso a técnicas especializadas do cultivo orgânico. Sem, pelo
menos, um aval implícito do órgão agrícola mais importante da região, será
difícil avançar em direção a um paradigma alternativo. Assim, o novo paradigma
necessitará da CEPLAC, e a CEPLAC também poderá usufruir vantagens do novo
paradigma. A CEPLAC foi criada com uma contribuição de 10 porcento sobre as
exportações do cacau, e o colapso da lavoura debilitou o órgão. Uma iniciativa
orgânica poderá ser utilizada para atrair novos recursos de doadores internacionais.
2. Começar a criar apoio
mais forte do consumidor para produtos agrícolas “benéficos à floresta.”
Em termos globais, o
setor orgânico de US$ 22 bilhões ao ano é o setor com um crescimento mais
acelerado de toda a economia agrícola. Evidentemente, mais e mais consumidores
se dispõem a pagar um preço um pouco maior para se precaver de danos
tradicionalmente considerados como um “custo externo” de produção – neste caso,
os danos causados por agrotóxicos. Esta disposição é uma oportunidade de mercado
que deveria ser perseguida agressivamente. Quando os consumidores adquirem
esses produtos, não estão apenas comprando a mercadoria propriamente dita;
estão comprando uma ligação – com um estilo de vida, um ideal, uma região ou
algo com o que se importam. Os produtores poderão incrementar o valor dessa
ligação ao oferecer aos consumidores algo mais com o qual se ligarem. No caso da Bahia, o
cacau poderia ser certificado como originário não apenas da cabruca orgânica,
mas também da cabruca orgânica em regeneração. Poderia ser certificado como “benéfico a aves,” uma
vez que a Bahia tem uma rica fauna avícola e aves têm carisma. E esta
certificação poderia se estender, além do chocolate, para produtos
farmacêuticos e cosméticos que incluem a manteiga de cacau e outras lavouras orgânicas cultivadas dentro
ou no entorno da cabruca. Finalmente, existe a possibilidade de se dar um salto
neste tipo de certificação, da condição de mercado de nicho para a consciência
pública: o cacau poderia contribuir não apenas para a conservação florestal,
mas também para a recuperação
florestal. Após décadas de publicidade sobre desmatamento tropical, a idéia de
incentivar a floresta de volta ao solo degradado poderá conter um poderoso
apelo de entusiasmo. Para tanto, seria necessário um terceiro passo:
3. Criar uma “capacidade de
ligação agroflorestal.”
Para que a cabruca e
outros pequenos fragmentos florestais na Bahia sobreviva, precisarão estar
ligados: corredores florestais precisam ser plantados entre eles ou, pelo
menos, onde não seja viável uma continuidade plena, as porções precisariam ser
ampliadas. (Continuidade é muito melhor do que um espaço vazio, porém um espaço
poderá ser cruzado por muitos organismos, sendo assim uma melhoria ao
isolamento.) Os corredores presumivelmente seriam um misto variado de floresta
natural recuperada e agrofloresta produtora. Não há legislação, política ou
oportunidade econômica específicas que possam ser invocadas para ligar os
fragmentos – mas há muitas situações econômicas e legais que poderão ser
transformadas em oportunidades para este tipo de esforço. A complexidade destas
atividades, a meu ver, é um forte argumento para a implantação de um único
programa ou, talvez, de um órgão independente, cuja missão precípua seja a
ligação agroflorestal. Tal órgão funcionaria como um tipo de versão local do
grandioso projeto de corredores ecológicos que o governo brasileiro está
realizando em nível nacional, com a ajuda de vários parceiros domésticos e
estrangeiros. (Para mais detalhes sobre os corredores, vide “A Recuperação de
um Hotspot,” página 8.) O projeto nacional está, necessariamente, centrado nas
áreas que contêm os melhores fragmentos naturais remanescentes. O programa
visualizado aqui funcionaria de forma análoga, porém enfocaria as várias áreas
“inferiores” ainda de importância crucial para o todo.
Na busca tanto dos
recursos quanto dos objetivos, o programa necessitaria de uma agenda flexível.
Por exemplo, deveria tentar capitalizar a preocupação crescente no leste do
Brasil quanto à necessidade de melhor gestão das bacias hidrográficas. Os
mananciais urbanos deterioraram em função do desmatamento; grande parte da
população parece perceber esta ligação e alguns políticos declararam interesse
em sua reparação.
O programa deverá
buscar formas de empregar o maior número possível de pessoas na recuperação da
floresta e no agroflorestamento. Deverá considerar a criação de empregos como
opção para obtenção de recursos – algo para o qual possa solicitar recursos. E
deverá olhar para o exterior, para outros programas de obras públicas
ambientais, como precedentes úteis. Um ponto de partida óbvio seria o programa
“Working for Water” [Trabalhando pela Água], da África do Sul, que emprega
cerca de 24.000 pessoas na retirada de árvores exóticas e arbustos invasivos
que sufocam os mananciais municipais. “Working for Water” se tornou um dos
programas mais eficazes de criação de emprego da África do Sul. A população
carente da Bahia poderia também “trabalhar pela água” – plantando árvores, ao
invés de extirpá-las.
Poderia ser
argumentado que tais propostas simplesmente não são realistas. E, na realidade,
não são, mas esta é sua virtude. Afinal de contas, é o realismo comum,
cotidiano, que geralmente cria os grandes problemas. É a recusa a ser realista,
no sentido comum, que geralmente conduz a soluções. A fabricação de pesticidas,
por exemplo, é um negócio sofisticado, de US$ 31 bilhões anuais. Muito realista
– mas quem teria acreditado que a arte agrícola do cultivo orgânico se tornaria
a parte de mais rápida expansão do setor agrícola? E é. Nosso relacionamento
com a árvore do chocolate é milenar e nos proporciona muito mais do que pode
ser encontrado no tipo de realismo da mercadoria cacau. O cacau pode ajudar a
rejuvenescer tanto as próprias florestas quanto nosso relacionamento com elas.
Qual é a promessa do sabor aveludado do chocolate? Alimento, florestas e vida.
Chris Bright é redator executivo de World Watch e
pesquisador sênior do WWI-Worldwatch Institute. A pesquisadora Danielle Nierenberg
contribuiu com a pesquisa para este artigo.
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